Na pele Capitão Hélio, de ‘‘Aquarela do Brasil’’, Edson Celulari acumula mais um personagem em que tem como características principais o charme e a sedução
Edson Celulari tem razão quando diz que sedução não tem nada a ver com idade. Aos 41 anos, ele esbanja charme como o impoluto Capitão Hélio da macrossérie ‘‘Aquarela do Brasil’’, de Lauro César Muniz. No decorrer da trama, o virtuoso oficial do Exército vai disputar o coração de Isa Galvão, uma aspirante a cantora interpretada por Maria Fernanda Cândido, com o boêmio pianista Mário Lopes, vivido por Thiago Lacerda, 19 anos mais novo. Em seu 20º trabalho na tevê, Edson só tem elogios a fazer aos novos companheiros de cena. ‘‘Além de talentosos, os dois têm ótimo senso de humor. Não existe nada pior do que trabalhar com gente mal-humorada’’, frisa.
Bom humor, aliás, é o que não falta a Edson Celulari. Brincalhão, ele conta nos dedos os motivos que o levaram a cancelar uma viagem ao Oriente só para participar de ‘‘Aquarela do Brasil’’. A possibilidade de encabeçar outra trama de época e de trabalhar com o diretor Jayme Monjardim foram alguns deles. O motivo mais forte, no entanto, foi a chance de prestar uma homenagem ao pai, Seu Edno, falecido há sete anos. Na adolescência, o rapaz vivia escutando as histórias que o pai contava sobre os tempos do quartel. O fascínio era tanto que Edson pensou até em seguir a carreira militar. ‘‘Infelizmente, não cumpri sequer o Serviço Militar Obrigatório. Como nunca fui militar, estou sendo agora, de mentirinha’’, diverte-se.
Ao longo da carreira, os olhos verdes e o ar de bom moço renderam ao ator inúmeros tipos sedutores na tevê, como Jean Pierre, de ‘‘Que Rei Sou Eu?’’, e Júlio Falcão, de ‘‘Explode Coração’’. Mesmo assim, o rótulo de galã não parece incomodá-lo. Afinal, ele também já incorporou papéis mais ousados, como o vingativo Raimundo Flamel, de ‘‘Fera Ferida’’, e o inescrupuloso Mariel, de ‘‘Decadência’’. Na hora de escolher os papéis, Edson limita-se a seguir a intuição. Tal critério de seleção, segundo ele, nunca falhou. ‘‘O meu diálogo com a Globo sempre foi muito saudável. Ainda não pedi para fazer nenhum papel. Mas, se precisar, eu peço sem a menor cerimônia’’, garante.
O Capitão Hélio é o ‘‘enésimo’’ sedutor que você interpreta na tevê. Qual é a maior diferença dele para os demais?
Não me sinto incomodado por ter a minha imagem associada a do galã. Assumo esse arquétipo com o maior prazer. Principalmente porque gosto de fazer outras coisas. Sempre que posso, interfiro nesse arquétipo. Já aconteceu, por exemplo, de recusar determinado papel, dizendo: ‘‘Já fiz esse papel algumas vezes. Vamos deixar outro ator tentar fazê-lo desta vez’’. O meu diálogo com a Globo sempre foi muito saudável. Nunca me senti obrigado a fazer o que eu não quisesse. No caso do Hélio, ele transmite sentimentos muito nobres, como ética, justiça, honradez... Infelizmente, esses valores andam muito escassos nos dias de hoje. Não só no que diz respeito às autoridades militares, mas de uma maneira geral.
Você se considera tão patriota quanto o Capitão Hélio?
O pior é que não sei como lidar com esse sentimento de patriotismo. A minha geração não conviveu com isso. Para mim, patriotismo é cantar o Hino Nacional na hora do jogo do Brasil. Já o Hélio viveu isso intensamente por causa da guerra. A guerra é o tipo de lugar que põe em xeque o patriotismo. Sabe aquela história de ‘‘vamos defender o Brasil’’? Pois é. Quando alguém fala esse tipo de coisa, penso logo no Guga ou na Seleção Brasileira. O Hélio é a mais perfeita representação do herói patriótico.
Você não acha que o Golpe de 1964 ajudou a mudar essa figura de herói patriótico?
Com certeza. A referência mais forte que temos é pós-64. Mas o autor não quer estabelecer uma comparação entre a Segunda Guerra e a Ditadura Militar. A minissérie termina em 18 de setembro de 1950, o dia da inauguração da tevê no Brasil. Além disso, esse tipo de comparação não cabe. Mesmo porque existem ótimos militares pós-64. Como também existiam militares naquela época que não eram tão bacanas quanto o Hélio. Não dá para generalizar. O que interessa ao Lauro César Muniz é mostrar o bom militar. Da mesma forma como interessava ao Dias Gomes mostrar o mau pastor em ‘‘Decadência’’. Em nenhum momento, o autor pretende fazer uma análise do militar como instituição. A visão é individualizada.
Quais são as consequências mais desastrosas do sucesso?
Às vezes, o sucesso sobe à cabeça e as pessoas ficam perdidas. Essa é uma fase que todos nós temos de superar. Também já passei por isso. A gente tem é de se concentrar no trabalho. Porque a coisa mais importante na vida de um ator é o trabalho que ele faz e não o sucesso que obtém. O sucesso passa. O trabalho, não. Nesta profissão, nem sempre você consegue bons papéis. Às vezes, você pega papéis que não dão tão certo quanto o autor imagina. O importante é dar o melhor de si, independentemente do papel que estiver fazendo.
Você se lembra do último ‘‘insucesso’’ que fez na tevê?
É difícil falar em insucesso na tevê por um motivo bem simples. Por menor que seja, a audiência de uma novela sempre atinge milhões de pessoas. Os números de ‘‘Vila Madalena’’, por exemplo, não foram ruins. Mas também não foram excepcionais. A história do Negrão era muito simples. Só acho que ‘‘Vila Madalena’’ poderia ter investido um pouco mais no humor. Não dá para exigir de uma novela mais do que ela mesma propõe. Pessoalmente, fiquei satisfeito.
Dos muitos trabalhos que fez, qual deles é o seu favorito?
Costumo dizer que os meus trabalhos favoritos são aqueles que mais fizeram sucesso. ‘‘Que Rei Sou Eu?’’, do Cassiano Gabus Mendes, fez um sucesso danado. Além disso, teve um apelo muito grande na mídia porque fazia uma paródia à realidade brasileira. ‘‘Decadência’’, do Dias Gomes, também fez muito sucesso. Principalmente porque gerou polêmica entre pastores e evangélicos. Nunca recebi tanta Bíblia na vida quanto naquela época. O que teve de pastor querendo me converter não estava no gibi. Alguns me viam na rua e logo gritavam: ‘‘Filho, Jesus te ama!’’. Eu sabia disso. Só estava fazendo o meu
trabalho.
Você se considera tão sedutor quanto os personagens que interpreta na televisão?
O exercício de sedução faz parte do meu trabalho. O ator tem de saber seduzir o público. Pessoalmente, a Cláudia nunca reclamou. Nós dois estabelecemos um pacto de estar sempre oferecendo surpresas um ao outro. Temos de ser criativos. A criatividade é necessária a todo relacionamento. Caso contrário, ele se torna chato. Um dia, ela me convidou para almoçar. Acontece que ela estava em Minas e eu, Pernambuco. Estávamos trabalhando em nossas respectivas peças. Nos encontramos em Brasília e, depois do almoço, retornamos. Foi ótimo.
Na macrossérie, você contracena com o Thiago Lacerda, 19 anos mais novo. Você não tem medo de envelhecer?
De jeito nenhum. Recentemente, cortei o cabelo para fazer ‘‘Aquarela do Brasil’’ e reparei nos primeiros fios brancos. Sou vaidoso à beça. Mas não a ponto de me preocupar com esse tipo de coisa. A única vaidade que me interessa no momento é fazer um bom trabalho. Essa vaidade me interessa. As outras, deixo para depois. Quero amadurecer e envelhecer de uma maneira muito saudável e inteligente. Aliás, todos nós deveríamos tentar fazer isso. Afinal, vamos todos envelhecer. Acredite. Por que eu haveria de sofrer com isso?

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