A sedução da imagem
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quinta-feira, 05 de dezembro de 1996
Telma Elorza 
Os artistas plásticos maringaenses Cristina Agostinho e Paolo Ridolfi abrem exposição de pinturas hoje, às 20h30, na Sala Celso Garcia Cid, do Cine-Teatro Ouro Verde, em Londrina. A mostra encerra o calendário 96 de exposições de artistas selecionados pelo Projeto Sala Celso Garcia Cid da Divisão de Artes da Universidade Estadual de Londrina.
Casados, esta é a primeira vez que os artistas expõem juntos e em Londrina. Ao todo, mostram 38 trabalhos, sendo 17 de Paolo e 21 de Cristina. Divididas em séries, as obras foram executadas em técnica mista. Cristina buscou na acrílica e no óleo sobre madeira sua forma de se expressar. Paolo, embora também pintor e escultor, optou pela fotografia digitalizada de pinturas anôminas para mostrar seu momento.
Figura como ícone O trabalho de Cristina, dividido em três séries - Auto-retrato, Cabeça de Boi e Vestido Amarelo 1 e 2 -, tem um fundo autobiográfico: ela busca a própria imagem para representar o corpo humano envolvido no processo de sedução. A figura é o grande ícone da exposição, que usa a estrutura onde está inserida para incomodar ou relaxar o olhar do observador. Muitas pessoas fazem um paralelo entre o meu trabalho e o da Frida Kahlo, por usarmos a própria imagem nos trabalhos. Mas Frida sempre teve um lado poético em que mostrava sua dor de forma quase explícita. O meu é mais seco, o principal mote é a sedução, o lado narcisista que todo mundo tem - diz.
Trabalhando com retratos há sete anos, seus ou de personagens anônimos, Cristina procura na série Auto-Retrato - com sete obras - um aspecto com certos elementos teatrais. O fundo escuro ou que não aparece, segundo ela, direciona o olhar para a figura, retratada em vários ângulos diferentes quase que dando a impressão de movimento e terceira dimensão. Procuro trabalhar muito a luz. Mesmo nos trabalhos que não estão sobre fundo escuro, sempre há um lado onde acontece o jogo luz/sombra - explica. Já na série Cabeça de Boi, com 12 obras, o direcionamento é outro. É a tentativa de buscar um certo incômodo do observador ao analisar um único trabalho. Porém, quando juntos, há uma transposição de reações - observa.
Pesquisa fotográfica Já Paolo apresenta duas séries, Ford e Forte 1, 2 e 3, além de oito outros trabalhos avulsos representando figuras muito conhecidas do público, todos baseados em fotografias que o artista vem coletando há três anos. Este trabalho surgiu meio que por acaso. Tanto que, quando nos inscrevemos para expor em Londrina, o que eu estava fazendo era totalmente diferente, mais baseado na pintura mesmo - conta.
O trabalho atual é resultado de uma pesquisa fotográfica sobre fachadas de lojas, bares, oficinas mecânicas e outros estabelecimentos comerciais. Segundo ele, as fotos que faz são suas anotações, a fonte onde bebo, e começou a reparar que o que estas fotos reproduziam tinha uma grande relação com seu trabalho. Eu faço uma arte mais popular. E estes símbolos que buscava nas fotos são símbolos populares. A série Ford, por exemplo. A marca Ford, a logomarca é conhecida internacionalmente e é a mesma em cada país. Só que, aqui, cada letrista de paredes o faz de sua maneira, que é a sua visão pessoal daquele signo - explica.
Fotografando várias logomarcas, digitalizando-as no computador e trabalhando sobre elas - às vezes apenas através da moldura -, Paolo consegue um efeito tal que o trabalho tanto dá a impressão de ter sido por uma só pessoa como por várias. Aí é que a gente levanta a questão sobre a quem pertence a imagem - diz. O mesmo foi feito com as outras, também de domínio público. Só que, desta vez, foi aplicado o alto contraste. A cor só aparece mesmo na série Forte, trabalhada sobre fotocópias coloridas. Uma novidade na sua obra. Como é a nossa primeira exposição juntos, minha e da Cristina, parece que houve uma espécie de inversão em nossos trabalhos. O meu tratamento sobre as obras - que, a grosso modo, é muito colorido - refletiu sobre o dela e o dela sobre o meu - conta.


