Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Até hoje se desconhece o autor do livro mais popular do mundo, a Bíblia. Alguns defendem a tese que trata-se de uma colagem de textos de autores anônimos escritos em diferentes épocas. Outros afirmam que foi escrita, de próprio punho, por Deus.
Em seu novo romance, ‘‘A Mulher que Escreveu a Bíblia’’, o escritor gaúcho Moacyr Scliar apresenta o argumento que o livro foi escrito por uma mulher que viveu, três mil anos atrás, no palácio do rei Salomão (970 - 931 a.C.) em Jerusalém. Detalhe: era uma mulher feia, muito feia, mas possuía encantos literários.
A idéia não é original. Na realidade foi retirada da tese do crítico norte-americano Harold Bloom publicada no livro ‘‘O Livro de J’’ (Editora Imago, 1992). Na obra Bloom defende a tese de que o texto bíblico hebraico conhecido como ‘‘Livro de J’’, foi escrito por uma mulher. Trata-se de uma tese controversa, pois numa cultura predominantemente patriarcal, onde os escribas eram raros, seria muito difícil encontrar uma mulher que soubesse ler e escrever. Mas o crítico baseia sua tese na diferenciação do estilo da escritura de ‘‘J’’ em comparação a outros textos bíblicos.
A personagem criada por Scliar, a autora da Bíblia, era a filha mais velha de um patriarca criador de cabras do deserto. Teve o primeiro trauma de sua vida na juventude, quando pela primeira vez conheceu o que era um espelho. Ao se olhar no espelho, não acreditou no que viu, algo torturante: ‘‘Uma catástrofe tinha ocorrido em minha face, um cataclisma que seguramente antecedera de muito o meu nascimento; o que eu estava vendo era a feiúra arcaica, a feiúra ancestral, uma feiúra consolidada pelos anos, pelos milênios, talvez.’’ Consciente de sua condição, isolou-se em revolta.
Com pena da jovem, um velho escriba decide ensiná-la, em segredo, a ler e escrever. Um belo dia, um mensageiro do rei Salomão chega com um recado. O nobre desejava se casar com a filha mais velha do patriarca, segundo as normas, numa prática de aliança política. Envergonhada, a jovem segue seu destino, viver no harém do rei de Israel. Um harém de dimensões fantásticas: 700 graciosas esposas. Como se não bastasse, mais 300 concubinas de reserva. Todas dividindo um único leito, a cama do rei.
Salomão, em sua lendária sabedoria, ao ver a feiúra de sua mais nova esposa, coloca-a na geladeira de seu harém. Ou seja, deixa a jovem privada dos prazeres de sua alcova. Sua única e misericordiosa tentativa converte-se em desastre, sua virilidade literalmente despenca.
Mas como Deus escreve certo em letras mornas, Salomão fica sabendo das qualidades literárias da moça e, insatisfeito com seus escribas, confere à mulher um importante missão: escrever um livro contando a história da humanidade, a história do povo judeu, uma obra grandiosa que serviria como base da civilização. Na verdade queria seu nome gravado na posteridade.
Na tênue esperança de seduzir o esposo e ter a oportunidade de conhecer os prazeres do sexo, aceita a missão e escreve a Bíblia - posteriormente devidamente revisada pelos escribas oficiais.
Lançado pela Editora Companhia das Letras, ‘‘A Mulher que Escreveu a Bíblia’’ está longe de ser um romance histórico e muito distante de ser um romance religioso. Com um humor irônico, algumas vezes sarcástico e mordaz, Moacyr Scliar compôs, na realidade, um romance satírico. Narra uma história previsível acomodada pela superficialidade. Não contém as inquietantes surpresas encontradas em outras obras do escritor, principalmente em seus contos.
A própria moldura da obra parte de um clichê, o que reforça seu caráter satírico. Durante um tratamento de terapia de vidas passadas, uma mulher moderna descobre que em uma de suas vida anteriores foi uma das esposas do rei Salomão. Uma esposa muito feia, exageradamente feia. Apesar do trauma de sua condição física foi responsável pela composição da Bíblia.
Durante a terapia, a mulher escreve sua história, ou melhor, a história da mulher que foi três mil anos atrás. No final do tratamento, curada dos traumas de vida presente, entrega o texto para seu terapeuta. Este texto é o romance escrito por Scliar.
Um fato curioso ocorre com pessoas que falam abertamente de suas vidas passadas. Afirmam terem sido poderosos reis, suntuosas princesas, príncipes valentes, ricos comerciantes, ou mesmo talentosos artistas. Dificilmente dizem que foram escravos desdentados, corcundas gagos, leprosos errantes, eunucos ressentidos, ou mesmo honestos lavadores de latrina. Com a personagem de ‘‘A Mulher que Escreveu a Bíblia’’ ocorre fato semelhante. Apesar de feia, tinha um belo corpo. Apesar de feia, escreveu a grandiosa Bíblia. Apesar de feia, dormiu com o estonteante rei Salomão.
‘‘A Mulher que Escreveu a Bíblia’’ de Moacyr Scliar, Editora Companhia das Letras, 218 páginas, R$ 24,00.

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