Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha 2
A realidade é um bloco de pedra bruta. O sonho é uma fonte de água cristalina. Sem o sonho a realidade permanece dura demais, uma pedra de moinho que tritura aspirações e esperanças. Sem a realidade, o sonho permanece líquido demais, um fio de água que escorre pelos vãos dos dedos.
A relação entre sonho e realidade é tema recorrente na história da literatura. Recebeu sua representação exemplar através das mãos do escritor espanhol Miguel de Cervantes Saaveda (1547 - 1616) no romance ‘‘Dom Quixote de La Mancha’’, publicado originalmente em 1605 (primeira parte) e 1915 (segunda parte).
A obra, um clássico da literatura universal, narra a história de Alonso, um homem fascinado pelos livros de cavalaria. Mergulhado na ficção, resolve se tornar um cavaleiro de verdade para lutar contra os fracos e oprimidos. Deseja combater, com todas as forças, o mal do mundo. Com a cabeça ocupada pela fantasia, Alonso se transforma em Dom Quixote, um cavaleiro andante.
Extasiado em seus sonhos, Quixote deixa de perceber a realidade concreta. Passa a lutar contra moinhos de vento pensando ser horrendos dragões, a combater ovelhas pensando tratar-se de um exército sanguinário, enfim, perde a ligação concreta com o mundo real. Em todas suas aventuras sempre leva a pior, mas não abandona seus sonhos. Seu fiel escudeiro, Sancho, realiza todas as tentativas de trazer Quixote à realidade, sem resultados.
No decorrer do tempo, ‘‘Dom Quixote’’ (El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha) recebeu inúmeras adaptações. A Editora Cia. Das Letras acaba de publicar ‘‘O Último Cavaleiro Andante’’, versão da obra de Miguel de Cervantes realizada por um dos maiores quadrinistas norte-americanos, Will Eisner, lendário criado de Spirit (O Espírito).
Aos 82 anos de idade, Will Eisner converteu a história do ‘‘cavaleiro de triste figura’’, um romance de mil páginas, numa história em quadrinhos de 30 páginas destinado ao público juvenil e infanto-juvenil. Apesar da dificuldade do desafio a adaptação de Eisner preserva, de maneira exemplar, a essência da obra de Cervantes que se converteu em arquétipo: a força do sonho e da realidade como construtores do mundo. E acima de tudo, a necessidade da existência dos sonhos como oásis no meio do deserto da brutalidade do real – a realidade só se torna suportável, e compreensível, quando acompanhada de sonhos.
Nos últimos anos Eisner se dedicou à adaptação de grandes obras da literatura para linguagem dos quadrinhos. Seu primeiro trabalho foi ‘‘O Princesa e o Sapo’’, uma versão do famoso conto de fadas dos irmãos Grimm. Na sequência, realizou ‘‘A Baleia Branca’’, versão do clássico ‘‘Moby Dick’’ do escritor Herman Melville – ambos publicados pela Editora Cia. Das Letras. Seu objetivo nesses projetos era incentivar crianças e jovens a se interessar pela literatura.
Em ‘‘O Último Cavaleiro Andante’’ Eisner coloca Sancho como narrador, relembrando seu passado ao lado de Quixote, e, saindo do original, coloca a figura do próprio Cervantes visitando o cavaleiro em seu leito de morte. Enaltece o devido valor dos sonhos e dos sonhadores na vida dos homens. Resgata, de maneira clara, a necessidade dos sonhos para a construção da realidade.
Um bloco de pedra é pedra. Sem um fio de água, fatalmente se transforma em deserto. A realidade, sem sonho, torna-se estéril.
‘‘O Último Cavaleiro Andante – Uma adaptação de Dom Quixote de Miguel de Cervantes’’ de Will Eisner, Editora Cia. das Letras, tradução de Carlos Sussekind, 32 páginas, R$ 16,00.

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