Quem disse que todo pecado nasce e vive na maldade? Dos sete pecados capitais, a ira tem um lado bom. Depende do ponto de vista de quem a analisa. O defensor da tese é o escritor José Roberto Torero, que acaba de lançar ‘‘Xadrez, Truco e Outras Guerras’’, pela Editora Objetiva. Autor de ‘‘O Chalaça’’, livro de estréia que lhe valeu o Prêmio Jabuti em 1995, e de ‘‘Terra Papagalli’’, Torero também escreveu e dirigiu curtas. Assinou os roteiros dos longas ‘‘A Felicidade’’ e ‘‘Pequeno Dicionário Amoroso’’, filme de grande sucesso. ‘‘Xadrez, Truco e Outras Guerras’’, livremente inspirado na guerra do Paraguai, faz parte da série ‘‘Plenos Pecados’’, projeto editorial que colocará no mercado sete volumes sobre os sete pecados capitais. O livro teve sessão de autógrafos no Curso Decisivo, em Curitiba. Minutos antes o escritor recebeu a Folha 2 para uma conversa, que resultou na entrevista abaixo:
A ira é o sentimento que sustenta uma guerra?
José Roberto Torero - Comecei fazendo o livro achando que sim, agora acho que não. Talvez sustente a guerra, mas nunca é a sua causadora. O que causa é sempre outro pecado: pode ser a gula, inveja, cobiça. Até a luxúria, como foi na Guerra de Tróia, mas nunca a ira.
Como você define este pecado?
José Roberto Torero - Não cheguei a uma única definição: cheguei a várias. Tem iras em vários tons, tamanhos e modelos. O que fiz no livro foi espalhar algumas dessas que encontrei, porque não consegui chegar numa única e decisiva.
Pode-se dizer que a ira é uma somatória de elementos?
José Roberto Torero - Não. Ela é que é meio variante, e quando foge do controle pode ser pecaminosa. Mas tem hora que é muito útil e até serve a boas causas. Por exemplo, a Revolução Francesa, a Revolução Russa - elas ajudaram a mudar a história da humanidade. Na verdade todo pecado pode ser bom ou mal.
Então todo pecado pode ser santo?
José Roberto Torero - Sim, principalmente a ira, que é o único pecado que Deus cometeu. Ele não cometeu luxúria, nem gula, nem inveja; mas a ira cometeu várias vezes, seja de Sodoma e Gomorra, seja no dilúvio... Na verdade não sei se todo pecado pode ser santo, mas pode ser bom. Se não fosse a preguiça, a gente não tinha inventado a roda, o computador, a escada rolante; se não fosse a gula, a cozinha não tinha melhorado tanto. A gente ainda estava comendo mamute cru. Se não fosse a inveja, não existiria a indústria de cosméticos, e talvez as pessoas não estudassem tanto... E se não fosse a ira, o mundo seria muito diferente. Teria menos guerras, menos mudanças sociais. Acho que seria pior. A ira é meio que necessária para a humanidade andar para algum lugar.
No nosso dia-a-dia, nas nossas guerrilhas brasileiras, que posição ocupa a ira?
José Roberto Torero - Na história do Brasil a ira não é um sentimento que apareça muito. A gente tem a história mais marcada por arranjos e associações, do que por guerras e rompimentos. Por exemplo, a Independência do Brasil foi quase que uma herança, uma passagem de cetro de pai para filho. A República, que na Europa sempre foi feita com guerras sangrentas, no Brasil se deu de forma quase pacífica. E mesmo a Revolução de 64 foi mais leve que as ditaduras do Chile e da Argentina. É a pior página da História, a mais cruel, mas mesmo assim não foi tão cruel como no resto da América Latina.
O Brasil não tem revoltas explícitas?
José Roberto Torero - Não existe essa ira declarada, existe uma subterrânea que é muito grande. A cada final de semana morrem 60 pessoas em São Paulo, muitas delas assassinadas. É um número absurdo, mas a ira é subterrânea. O Brasil não é um País explícito, é um País onde as coisas acontecem meio que escondidas. Tanto no racismo quanto nas manifestações de ira. A gente não tem guerras oficiais, mas nesta história de morrer 60 pessoas por semana em São Paulo, é quase uma guerra civil.
Este tipo subterrâneo não vem a fomentar um sentimento maior e mais explosivo, mesmo que tardiamente?
José Roberto Torero - Acho que é como uma doença crônica, que não se resolve. Ela nunca chega ao topo, à superfície para se revelar e se resolver, como acontece nas revoluções sociais. Fica ali embaixo, sempre alimentada, sempre forte. É um modelo tropical de ira.
Com o livro na praça, que outros projetos você tem em mente?
José Roberto Torero - Bem, já dirigi vários curtas, e, inclusive, um Festival de Curitiba, com ‘‘Alma do Negócio’’. Agora queria dirigir um longa-metragem, talvez com a adaptação de ‘‘Terra Papagali’’, que já fiz o roteiro, ou com ‘‘Paixão de Amor’’, que seria um filme sobre filmes de amor. Vou tentar fazer a captação de recursos.
O que é mais envolvente, o cinema ou a literatura?
José Roberto Torero - Escrever é mais divertido. O cinema tem várias partes: a pré e a pós-produção são muito chatas. A direção de cena é divertida. Dirigir empata com escrever, mas no conjunto acho que a literatura ganha do cinema.
Isso mostra que no momento você não está escrevendo?
José Roberto Torero - Não. Estou lendo para o próximo livro. Estou lendo romances, coisas de Brasília, de intrigas palacianas.
Então vai falar do Brasil, passando pelo poder central?
José Roberto Torero - Quero enfocar a atualidade, mas pode ser que lá pelo meio eu mude para a República, que é uma coisa bacana, e que eu queria fazer. Ou passe para a escravatura, que é um período bem importante do Brasil, cheio de histórias muito boas, com personagens muito bons. De certa forma foi ali que nasceu a corrupção.

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