No final da década de 1930, centenas de famílias alemãs chegaram no Norte do Paraná, especialmente na recém fundada cidade de Roland – atual Rolândia. Estavam fugindo dos horrores da ascensão do nazismo na Alemanha e da Segunda Guerra Mundial.

Entre essas famílias, estava a de Cornelia Wendel, escritora que está lançando “Uma Maçã Para Quatro”, romance histórico que resgata a saga de seus antepassados.

Da fuga do holocausto, passando pela difícil adaptação numa terra estranha e selvagem, até a fixação de raízes em solo brasileiro. A história de três gerações vivendo batalhas, traumas, encontros e cisões.

O lançamento do livro, publicado pela editora Labrador, acontece nesta quinta-feira (29), a partir de 18h30, na Livraria da Vila do Aurora Shopping. A obra marca da estreia de Cornelia Wendel na literatura.

Entre os episódios narrados, está uma história de amor surpreendente e improvável. Uma jovem alemã judia chamada Bertha chega ao Brasil fugindo dos horrores do holocausto. Pouco depois, um ex-soldado do exército nazistas chamado Willy também chega ao país. Os dois se encontram em Rolândia, se casam e constituem família.

Com uma longa trajetória na medicina, Cornelia Wendel fala a seguir sobre a obra e de sua jornada ao escrever “Uma Maçã Para Quatro”.

“Uma Maçã Para Quatro” é um romance baseado na história de sua família, imigrantes alemães que fixaram residência em Rolândia no final da década de 1930. Toda a narrativa da obra é baseada em fatos reais ou existe alguma dose de ficção?

O livro é um romance histórico, totalmente baseado em fatos reais, tanto em datas quanto em eventos mencionados. Os nomes são fictícios para preservar a privacidade dos personagens. A obra relata a trajetória de uma família cujo avô judeu leva obrigatoriamente à fuga de todos, partindo de uma vida abastada na Alemanha para um recomeço incerto no inóspito e longínquo Brasil de 1939. A história é um quebra cabeça em que faltavam várias peças provindas dos silêncios causados pelos traumas. E essas lacunas foram preenchidas com detalhes fictícios para que pudesse se tornar um romance.

“Uma Maçã Para Quatro” narra a saga imigrantes alemães vindos para o Brasil fugindo do holocausto e da guerra. E apresenta um caso de amor improvável: o casamento entre uma judia e um ex-soldado do exército nazista. Como isso aconteceu?

A obra narra uma das milhares de sagas desses imigrantes alemães que vieram principalmente depois de 1933, quando Hitler subiu ao poder. Alguns artigos citam o expressivo número de 80 mil imigrantes entre 1933 e o fim da Segunda Guerra em 1945. Eram em sua maioria judeus, mas também comunistas e outros opositores do nazismo. Ou alemães em busca de oportunidades. Minha avó, mãe e tia fugiram da Alemanha em abril de 1939, nos últimos minutos do segundo tempo. Meu avô não conseguiu o visto de entrada no Brasil depois que Getúlio Vargas fechou as fronteiras aos judeus. A história de amor entre Bertha (filha de pai judeu) e Willy (ex-soldado nazista) ocorre somente após a guerra, quando seus destinos se cruzam no Brasil, mais especificamente em Rolândia. E a probabilidade desse romance ocorrer era realmente muito remota. Mas como já dizia o cantor e compositor Renato Russo, “e quem um dia irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração”. E não poderia deixar de ser uma relação de amor e ódio, se atraíam e se repeliam com a mesma intensidade e frequência...

Cornelia Wendel: "Minha avó, mãe e tia fugiram da Alemanha em abril de 1939, nos últimos minutos do segundo tempo"
Cornelia Wendel: "Minha avó, mãe e tia fugiram da Alemanha em abril de 1939, nos últimos minutos do segundo tempo" | Foto: Agência Effect/Divulgação

Um dos episódios de “Uma Maçã Para Quatro” narra a chegada de uma mulher no Norte do Paraná sozinha com duas jovens filhas. Como foi a vida dessas mulheres em plena década de 1930?

Bem, acho que ir para o desconhecido já é naturalmente difícil para qualquer ser humano. Ou qualquer ser vivo. Imagina trazer um leopardo do Quênia para o cerrado brasileiro... Provavelmente ele nunca se adaptaria. Some-se a isso a época relatada aqui: 1939, um mundo não globalizado, não digitalizado, em que as informações não eram precisas nem abundantes, ou seja, o destino era literalmente desconhecido. Some-se a isso o medo, as perdas, os lutos que causaram a emigração, deixando um rastro de insegurança imenso em cada alma que partia e chegava ao porto de Santos. E assim chegaram aqui Annelise, Bertha e Anne. As filhas de Annelise tinham 15 e quase 17 anos. Haviam sido educadas para o piano e os bordados e, de repente foram separadas e obrigadas a tirar leite das vacas às 5 horas da manhã. A adaptação foi muito lenta e dolorosa, mas com certeza trouxe muita resiliência, e afinal, as terras brasileiras tornaram-se o lar definitivo de Bertha.

O romance revela os traumas dos imigrantes judeus que passaram a viver no Brasil fugindo do nazismo. Traumas que atravessaram gerações. Você considera que as novas gerações hoje nascem livres desses traumas?

Traumas se apegam às mentes, às almas, ao sangue e aos sonhos. E assim, grudam ao futuro e a muitas e muitas gerações. Não acho que as novas gerações já nasçam livres deles. Os traumas ressoam em noites mal dormidas, em dores de origem desconhecida, em ansiedades latentes e inexplicáveis e em comportamentos que não condizem com o habitat a princípio calmo e equilibrado em que aquele indivíduo “borderline” foi criado. Se um dia serão neutralizados? Talvez sim, ou simplesmente se misturarão a tantas outras vivências, que não serão mais traduzidas como herança maldita de guerras e holocaustos.

Você possui uma longa trajetória na medicina e agora está se lançando na literatura. Você sempre cultivou o interesse pela escrita ou o desejo de escrever um romance histórico surgiu inesperadamente?

Nesse ponto, tenho que admitir que nunca havia me visto como escritora. Escrevi inúmeras poesias na adolescência, guardei todas em uma caixa de papelão e nunca mais olhei. Bobagens deixadas pelo caminho. Mas confesso que a leitura sim, essa sempre me cativou, me guiou, me encantou, me provocou e me preencheu. Mas daí a escrever um livro sobre a trajetória da minha família? Não, não era um projeto longamente planejado. Surgiu recentemente como uma brincadeira provocativa de um amigo. Ele dizia “alemoa, aí tem muita história, tu tens que escrever sobre isso!”. E quando o universo conspira a favor, aquilo tem que acontecer. O vento foi soprando pedacinhos dessa saga, e estes pedacinhos começaram a dar forma, a conectar as pontas que estavam soltas e de repente eu tinha um romance em mãos. No início, eu não tinha um objetivo claro em mente. A história não é a da Segunda Guerra, ela corre paralela a ela. Mas é ela que promove toda essa trajetória. Com todas as informações que obtive, além de pesquisas, documentos e viagens que uniam milimetricamente esse enredo, eu percebi que o objetivo era humildemente grande. E para descrevê-lo, vou usar aqui a frase de Carlos Reiss no prefácio do livro: “Podemos nos esquecer dessa fase escura da nossa história? Não, seis milhões de vezes, não!”.

Imagem ilustrativa da imagem A saga dos alemães e seus descendentes em Rolândia
| Foto: Divulgação

SERVIÇO:

“Uma Maçã Para Quatro”

Autora - Cornelia Wendel

Editora – Labrador

Prefácio – Carlos Reiss

Páginas – 416

Quanto – R$ 89,90

Lançamento: quinta-feira (29), a partir de 18h30

Onde – Livraria da Vila – Aurora Shopping (Av. Ayrton Senna da Silva, 400)

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