A SAGA DO MOVIMENTO PUNK
Nelson Sato
De Londrina
A história do punk, tantas vezes escrita e repisada a cada data comemorativa, ganhou sua versão em livro no Brasil. Punk: Anarquia Planetária e a Cena Brasileira, de Silvio Essinger, passa a limpo o assunto recontando em dez capítulos a trajetória do movimento que incendiou a música e o comportamento da garotada a partir da metade da década de 70.
O livro é mais um título da coleção Ouvido Musical, da editora 34, que já lançou volumes dedicados ao heavy metal, blues, reggae e choro. Chegou a vez do punk, que é retratado pelo autor como a maior e mais genuína expressão das inquietações jovens de todos os tempos. Essinger, um dos colaboradores da revista International Magazine, introduz os leitores vasculhando os primórdios do gênero com as habituais referências a bandas de garagem americanas, aos mods ingleses e aos sempre citados Velvet Underground, MC5, The Stooges e The New York Dolls.
Avança até a cena cultural gestada em torno do clube nova-iorquino CBGB, de onde emergeriram os Ramones. Com suas calças rasgadas, casacos de couro, cabelos compridos mas malcuidados e a pose de quem não está nem aí para nada, eles podem ser considerados a primeira banda punk de todos os tempos escreve ele.
Crus e toscos, os Ramones inspirariam equivalentes na Inglaterra depois de uma turnê promocional de seu álbum de estréia em Londres. Guitarras vagabundas plugadas num amplificador podre, uma bateria reta e uma canção em que o vocalista dizia cheirar cola foram suficientes para instalar o vírus na molecada britânica.
Era 1976. E punk rock, afinal de contas, era rock básico numa época em que as bandas queriam ser pomposas e progressivas. A passagem dos Ramones foi o estopim para a formação dos Sex Pistols, para o qual é dedicado todo um capítulo do livro. Aqui, lendas e fatos se confundem. O autor faz uma compilação dos episódios pitorescos protagonizados por Johnny Rotten, Paul Cook, Steve Jones e Glen Matlock (depois substituído por Sid Vicious) em sua curta aventura musical.
Constam nestas páginas o célebre bafão na TV, a perseguição da imprensa sensacionalista, as tretas com as gravadoras, as baixarias em aeroportos, a provocação durante a comemoração do jubileu da Rainha Elizabeth, os escândalos movidos a drogas e a viagem de dois Pistols ao Brasil para gravar com o famoso ladrão inglês Ronald Biggs.
O punk inglês é destacado ainda com uma pequena biografia da banda The Clash, antípoda dos Pistols em atitude. Se estes abusavam do mau humor e da arruaça, aqueles adotavam a militância política sem descuidar dos acordes. No começo dos anos 80, eles se tornariam a melhor banda de rock do mundo assinala Essinger. Continuando o percurso pelos porões, ele lembra o período em que o punk deixou de ser uma das excentricidades do mercado pop para se transformar em movimento.
A mudança eclodiria com a segunda geração de bandas, aquela que moldaria o hardcore, uma versão mais acelerada e engajada da corrente. Nos Estados Unidos, a Califórnia foi o berço do estilo. Germs, Black Flag, Circle Jerks, Social Distorcion, Dead Kennedys e Minor Threat são algumas das bandas citadas nesta passagem.
O levantamento, no entanto, privilegia a erupção do punk no Brasil. Do meio para o fim do livro, o autor revisita os passos do movimento no país chegando a fazer associações absurdas, como a de atribuir o título de punks espirituais a Noel Rosa e Aracy de Almeida isso sem falar no exagero de ver um embrião do estilo na obra dos compositores Jards Macalé e Walter Franco.
Mas é no capítulo Garotos do Subúrbio que nomes precursores como Inocentes, Olho Seco, Cólera, Inocentes e Ratos de Porão despontam na narrativa professando o ideário do faça você mesmo lema punk por excelência que prega que ninguém precisa se contentar em ser apenas público podendo também montar sua própria banda e subir num palco.
Bandas de São Paulo, Rio, Brasília e até representantes solitárias de outros centros caso da Camisa de Vênus em Salvador e dos Replicantes em Porto Alegre atravessam as páginas até as considerações finais do autor sobre o punk nos anos 90. Como força subversiva que explode em lava a partir de um vulcão aparentemente adormecido, o punk terá tudo para ressurgir espetacularmente em qualquer dia do fim do milênio anota ele.
Punk Anarquia Planetária e a Cena Brasileira tem pouco mais de 220 páginas. Foi escrito como uma grande reportagem, sem recorrer a blablablás teóricos. Dá pra ler numa sentada.A história do punk é contada em livro que faz parte da coleção Ouvido Musical, da editora 34
ReproduçãoEstereótipo do punk: movimento que, segundo Silvio Essinger, tem tudo para ressurgir no fim do milênioReproduçãoSex Pistols: episódios pitorescos são contados no livroReproduçãoRamones: precursores do punk, eles inspiraram outras bandas





