A saga do cinema na Amazônia
Ranulfo Pedreiro
De Londrina
O primeiro brasileiro a atuar em filmes norte-americanos foi um paraense autodenominado Syn de Conde, que chegou a participar de um longa-metragem de David Wark Griffith. Conde tem uma história curiosa, revelada pelo cinéfilo Pedro Veriano em Cinema no Tucupi, livro lançado pela Secretaria de Cultura do Pará.
A epopéia começa quando Sinésio Mariano de Aguiar foi enviado pelo pai a Bruxelas para estudar. Mas o rapaz pegou um navio e, por fim, foi parar em Los Angeles. Lá, Aguiar cantou uma garota pelo tradicional torpedo, um bilhete enviado por um garçon. A resposta veio em forma de um endereço onde ficava um set de filmagens.
Em busca da moça, o rapaz se embrenhou no meio do cenário, até encontrar um diretor que lhe perguntou o que se passava. Malandro, Aguiar respondeu que era ator na França. Para convencer, o brasileiro ensaiou uma dança aprendida em Paris. O diretor gostou. Mas faltava um nome artístico. Aguiar olhou em volta e viu uma garrafa de vinho Condé, e acrescentou as três primeiras letras de seu nome. Ficou Syn de Conde.
Foi o início da carreira. Syn de Conde fez alguns filmes e chegou a dividir um quarto de pensão com Rodolfo Valentino. Até que um dia, num cinema de Belém, o jovem foi reconhecido em uma produção. Em 1920, o pai mandou-o de volta ao Brasil. Chegava ao fim a aventura do primeiro brasileiro nas asas do cinema americano.
O livro Cinema no Tucupi traz várias outras histórias, enfocando, principalmente, o desenvolvimento do cinema no Pará. É um contexto local, com muitos capítulos de interesse quase exclusivamente paraense. Mas em outros, como Estrelas em Nosso Chão, Pedro Veriano conta a saga de vários filmes rodados na Amazônia, alguns verdadeiras picaretagens. Com muito bom humor, o cinéfilo narra a passagem de nomes como Walt Disney, Lana Turner, Louis Malle, William Wyler, Orson Welles e muitos outros por Belém.
Outro capítulo interessante é Os Invasores, em que as histórias sobre as produções rodadas na Amazônia chegam a ser hilárias. O diretor John Booman, de À Queima Roupa, por exemplo, esteve em Belém, onde foi muito bem recebido para realizar Floresta de Esmeraldas. Depois de falar com a imprensa, Booman agradou os paraenses disfarçando seus preconceitos.
Mas, de volta ao exterior, reafirmou o clichê de que Belém do Pará era uma espécie de cidade selvagem. Durante uma entrevista à revista PremiSre, no Festival de Cannes, Booman revelou que teve medo de ser devorado por canibais durante sua estadia na capital paraense. Cinema no Tucupi tem 91 páginas e traz várias fotos. O livro pode ser encomendado pelo telefone (091) 241-2333, ramal 134, no horário da manhã.





