A saga do aventureiro alemão chega as telas com "Hans Staden"
A saga do aventureiro alemão chega as telas com "Hans Staden"16/Mar, 16:27 Por Luiz Zanin Oricchio São Paulo, 16 (AE) - Chega amanhã (17) aos cinemas "Hans Staden", de Luiz Alberto Pereira. O tema é a saga do aventureiro alemão que veio ao Brasil no século 16, permaneceu nove meses prisioneiro dos tupinambás e quase foi devorado num ritual antropofágico que, naquele época, não era exatamente uma metáfora modernista sobre a incorporação de culturas alheias. Significava virar churrasco de índio. Apresentado no Festival de Brasília, o filme ganhou três troféus, o de trilha sonora, direção de arte e um prêmio especial do júri, justificado pela "excelência de sua realização". Insatisfeito com o que julgou ser um parco reconhecimento de sua obra, o diretor jogou seus prêmios no lixo. Atitude irreverente, que não combina muito com o tom geral de seu trabalho mais recente. "Hans Staden", aliás, pode ser tomado por caso emblemático do cinema brasileiro dos anos 90. Tecnicamente impecável, é cuidadoso da escolha dos figurinos (exíguos, dado o tema tratado), à direção de arte e música. Tem visual muito bonito e procura caracterizações precisas, embora seus índios de traços europeus, pintados de urucum, não convençam o mais crédulo dos espectadores. Enfim, tudo bem-feitinho, mas pouco ousado. O que surpreende, em se tratando de Pereira, cineasta com dois longas anteriores no currículo (Jânio a 24 Quadros e O Efeito Ilha), irregulares a mais não poder, mas testemunhos de certa inquietação intelectual do diretor. Bem, esse desassossego, se ainda existe, passa despercebido em "Hans Staden". A preocupação, aqui, parece ter sido seguir fielmente o relato original do viajante e colocá-lo em sintonia com um certo "cinema de qualidade" que, em tese, teria bom diálogo com um público recalcitrante. Apenas para efeito de comparação. Em 1970, Nelson Pereira dos Santos lança "Como Era Gostoso o Meu Francês", uma versão livre das desventuras de Staden no país tropical. Época de ditadura militar, Nelson recuava ao Brasil colônia para comentar indiretamente um milagre econômico que se fazia à custa da população. Não chegava a ser um filme realmente bom, mas se percebia-se nele um propósito, um projeto, uma certa concepção da política e do País que deveriam ser expressos e talvez discutidos por meio da arte. Tudo isso faz parte do passado. Das neves de antanho, das quais falava o pobre François Villon. Como para bem ou para mal, as ideologias dançaram, e a atitude crítica caiu em desuso, resta seguir à risca o figurino do mercado e ver no que dá. Aliás, não tem dado em nada, mas não custa tentar. Assim, correto e equilibrado, "Hans Staden" carece, no fundo, de um ponto de vista do diretor. As ações passam-se na tela, desfilam diante do espectador, que as contempla com interesse mediano, que se não resvala no tédio ne alcança o entusiasmo. Daí a olímpica indiferença com que o normalmente entusiástico público do Festival de Brasília o recebeu. Se não se pode falar em inventividade, sobram algumas qualidades, como a auto-exposição corajosa de Carlos Evelyn, que interpreta Staden em regime de nudez total quase todo o tempo. Ou o respeito aos idiomas originais dos personagens, à fotografia, música, ou todos esses elementos dispersos que, bons em separado, se somam com dificuldade, sem conseguirem formar uma totalidade convincente. Falta tom, personalidade e gestalt. Falta autoria. Sobra a ele um interesse didático evidente. É bom que, de uma forma ou de outra, as pessoas conheçam esse encontro assimétrico entre um europeu e os habitantes originais do País. O Espaço Unibanco de Cinema informa que o filme faz parte do seu Projeto Escola, que marca horários para as escolas interessadas, pelos telefones 287-5590 ou 288-4591.





