LEITURA -

A saga de uma nação

'Na Terra do Cervo Branco', romance do escritor chinês Chen Zhongshi, retrata as transformações da China ao longo do século 20

Marcos Losnak/ Especial para Folha 2
Marcos Losnak/ Especial para Folha 2

Chen Zhongshi: autor recebeu vários prêmios pelo livro 'Na Terra do Cervo Branco' que foi transformado também em novela de TV
Chen Zhongshi: autor recebeu vários prêmios pelo livro 'Na Terra do Cervo Branco' que foi transformado também em novela de TV | Xinhua/Divulgação
 


Nas últimas décadas a globalização delineou o funcionamento do mundo. Todas as áreas foram envolvidas e a literatura não ficou de fora. A literatura regionalista praticamente atingiu a invisibilidade diante de um mundo globalizado.

“Na Terra do Cervo Branco”, romance do escritor chinês Chen Zhongshi (1942 – 2016) revela que essa invisibilidade não é total, apenas parcial e localizada. Trata-se de uma obra ficcional que retrata a China de maneira regionalista, não globalizada.




A obra apresenta as transformações históricas e culturais da China ao longo da primeira metade do século 20. Os conflitos políticos aparecem lado a lado com das tradições milenares. Tudo através do retrato da atmosfera da vida cotidiana dos habitantes de um pequeno vilarejo do interior do país, uma planície chamada Cervo Branco.

“Na Terra do Cervo Branco” retrata a saga de três gerações da família dos clãs Bai e Lu. Chefiadas por Bai Jiaxuan e Lu Zulin, as duas famílias dividem o poder do vilarejo. As famílias vivem uma relação dúbia de amizade e inimizade, de cooperação e competição, de amor e ódio. E a cada nova geração que se estabelece, mudanças e contradições aparecem.


As gerações dos Bai e dos Lu vivem o fim do império feudal chinês e o início da democracia. Uma democracia conquistada pela união de forças que logo dá origem a facções de disputa de poder. O partido Nacionalista assume o governo, mas em pouco tempo o partido Comunista entra na batalha. Os dois exércitos dividem os integrantes das duas famílias. Alguns filhos se juntam aos Nacionalistas, outros filhos se unem aos Comunistas. Uma divisão que acontece dentro da mesma família, dentro do mesmo clã. Quando tem início a Segundo Guerra Mundial e o Japão invade a China, a configuração retorna para a união de forças. Com a expulsão do exército japonês no território chinês, as facções voltam para a guerra civil que culminam na Revolução Comunista Chinesa oficializada em 1949. Em todas essas etapas, entre mudanças e crueldades, os membros de uma mesma família se dividem, como os clãs se dividem.


“Na Terra do Cervo Branco” pode ser descrito como uma literatura puramente chinesa. Todo enfoque do autor está em apresentar a saga de duas famílias tipicamente chinesa sentindo o país num mar de transformações radicais, vivendo num universo rural com todas as tradições milenares ainda em vigor, inclusive a tradição do confucionismo. Não há o elemento da globalização, o regional ainda permanece regionalizado.


Na verdade, as famílias não conhecem ou possuem a real dimensão do país que vivem. Imersos numa tradição rural sem acesso a nenhum recurso industrial ou tecnológico, dependem dos filhos rebeldes que partem para outros lugares em busca de novos ares. E são justamente esses filhos que, apesar do desgosto dos pais e avós, serão os responsáveis pela transição das certezas das tradições milenares para as incertezas da modernidade.


Chen Zhongshi nasceu em 1942 na região rural de Xi’na, capital da província de Shaanxi, no nordeste da China. De origem camponesa, iniciou a carreira literária no início da década de 1970 publicando contos e novelas em jornais e revistas. Com abertura econômica e cultural do país após a morte de Mao Tsé-Tung, Zhongshi teve acesso à literatura mundial entrando em contato com obras de autores como Honoré de Balzac, Anton Tchekhov e Gabriel García Márquez.


Em seus contos e novelas Zhongshi utilizava elementos regionalistas, retratando a vida cotidiana do interior do país utilizando como fontes a tradição oral e o folclore. Refinou essa característica em seu único romance, “Na Terra do Cervo Branco”, publicado originalmente em 1993. Diferente de outros famosos escritores chineses, como Mo Yan e Yu Hua, que apostaram na literatura globalizada, Chen Zhongshi preservou o regionalismo, o interiorano, o rural, o folclórico.

Antes de falecer em 2016, Zhongshi viu “Na Terra do Cervo Branco” receber vários prêmios literários e vender milhares e milhares em seu país. Mas não viu a obra ser convertida em novela na televisão chinesa, uma série de 85 episódios exibidos em 2017.


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. | Reprodução
 


Serviço:

“Na Terra do Cervo Branco”

Autor – Chen Zhongshi

Editora – Estação Liberdade

Tradução – Ho Yeh Chia, Márcia Schmaltz e Mauro Pinheiro

Páginas – 864



Quanto – R$ 119

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