A saga da Coluna Prestes
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de fevereiro de 1997
Carlos Haag Agência Estado 
Arquivo FolhaDomingos Meirelles: cruzando os limites da ficção sem descuidar da autenticidades dos fatosNo dia 3 de fevereiro de 1927, os 620 homens remanescentes dos 1.500 rebeldes que compunham a Coluna Prestes cruzaram a fronteira com a Bolívia e, esfaimados e esfarrapados, depuseram suas armas. Iniciada em 1924, a marcha percorreu 13 Estados brasileiros ao longo de 25 mil quilômetros, o dobro da distância que Mao Tsé-tung e o Exército Vermelho chinês andariam, dez anos mais tarde, na Longa Marcha. Para lembrar os 70 anos do fim da Coluna, a Editora Record relança As Noites das Grandes Fogueiras (765 páginas, R$ 34,90), de Domingos Meirelles.
Vencedor do Prêmio Jabuti de 1996, na categoria de melhor livro de reportagem, com 22 mil exemplares vendidos, As Noites... pode ser transformado em longa-metragem com direção de Walter Lima Jr. O jornalista Domingos Meirelles iniciou sua obra há 20 anos, durante uma série de reportagens para o Jornal da Tarde sobre os 50 anos da Coluna. Ao conjunto de entrevistas, feitas com participantes do movimento, acrescentou intensas pesquisas de época, que resultaram num retrato fiel e detalhado do conflito e de seus principais personagens.
Muitas vezes cruzando os limites da ficção, mas sem descuidar da autenticidade em suas descrições, Meirelles criou um livro de história factual que se lê com grande prazer. Escrito sempre em tempo presente, das escaramuças entre federalistas e rebeldes às reuniões palacianas do presidente Arthur Bernardes, passando pelos bastidores políticos, tudo aparece envolto em vivacidade e verdade que cativam o leitor e o estimulam a enfrentar o oceano das mais de 700 páginas.
Um raro momento de luta pela liberdade no País, ainda assim a história da Coluna é, em geral, pouco conhecida do grande público. Com razão, Anita Leocádia, filha de Luís Carlos Prestes, denunciou o esquecimento a que a Coluna foi relegada pela historiografia oficial, em razão da adesão posterior de seu pai ao Partido Comunista.
Assim, à exceção de alguns poucos livros acadêmicos e dos fundamentais A Coluna Prestes, Marchas e Combates, de Lourenço Moreira Lima (Editora Alfa-Ômega) e A Coluna Prestes, da própria Anita (Editora Brasiliense), havia uma lacuna sobre os levantes tenentistas anteriores à revolução de 1930.
Sem colocar Prestes como centro do livro, a simpatia do autor vai, inicialmente, para a cidade de São Paulo, a cuja desvastação sofrida durante o governo provisório de Isidoro Lopes o jornalista dedica boa parte de As Noites.... Em seguida, debruça-se sobre o esforço e a valentia dos participantes da Coluna, nos quais identifica, apesar da origem mais privilegiada de elite militar, uma forte consciência social em face da miséria encontrada ao longo do caminho.
Personagens curiososNão se deve, no entanto, esperar análises conclusivas sobre as condições em que o movimento rebelde ocorreu. Optando por não depreender ideologias muito aprofundadas da Coluna ou proto-socialismos, para além do incipiente radicalismo progressista dos tenentes, interessados em derrubar Bernardes e acabar com as oligarquias da República Velha, Meirelles descreve os fatos, sem adensar reflexões. O seu maior interesse é narrar a garra quase romântica da luta e a camaradagem que os reunia, à noite, em volta das grandes fogueiras que dão título ao livro.
O fascínio é pelo heroísmo individual da Coluna, não pelas idéias de seus líderes. Até mesmo porque o movimento foi um evento limitado e mais influente junto aos tenentes que às populações rurais. Essas até podiam vê-los com bons olhos, mas nem sempre entendiam as razões de sua luta.
São especialmente interessantes os capítulos sobre o temível coronel Horácio Matos, cujos arquivos foram trazidos à luz por Meirelles em suas pesquisas. Dando relevo às pequenas figuras e caracterizando, com detalhes, os grandes personagens, As Noites... transforma nomes apenas mencionados nos manuais em agentes da história.
Nada mais coerente, pois, embora dando a real medida da Coluna, Meirelles consegue recuperar o que havia de melhor no movimento, a saber, a força do seu ideal. Com visões diferenciadas, ele e Anita Leocádia acabam compartilhando uma conclusão otimista: quando necessário, o País sabe mobilizar-se contra a opressão.
Da mesma forma, há o talento para contar boas histórias. Em meio à imensidão dos grandes feitos, Meirelles não desdenha falar de comprimários como o tenente e veterinário Aristides Leal, promovido a chefe do corpo de saúde. Ou informar-nos sobre os hábitos de leitura de Távora, com seu Dante, e de João Alberto, que carregou pelo sertão os 21 volumes da História Universal de Cesare Cantu. Para muitos paulistanos pode ser um choque descobrir que São Paulo foi bombardeada durante 16 dias por aviões legalistas, obrigando 300 mil dos seus 700 mil habitantes a deixar a capital para escapar do massacre.
Igualmente curioso é imaginar o Padre Cícero convocando o cangaçeiro Lampião para, assumindo uma patente graduada no Batalhão Patriótico do Floro Bartolomeu, sair à caça dos rebeldes da Coluna. Ler As Noites das Grandes Fogueiras é entender a história feita a partir de seus maiores ingredientes: pessoas e ações.


