Nelson Sato
De Londrina
O impulso de emaranhar ritmos brazucas com a eletrônica está virando moda por aqui. O resultado fica muitas vezes entre a ambição e o escorregão. É nesse meio-termo que parecem se encaixar os CDs ‘‘Samba Raro’’ (Trama), de Max de Castro, e ‘‘EletroBenDodô’’ (Natasha), de Lucas Santtana.
Mas vamos por partes. Max de Castro é filho do controverso cantor Wilson Simonal, famoso por emplacar sucessos nos anos 70 e carimbar seu nome no meio artístico como dedo-duro de colegas durante a ditadura militar. Em seu disco de estréia, Max compôs, cantou, assinou os arranjos, tocou vários instrumentos e ainda produziu o próprio material.
Diferente do que sugere o título, ele na verdade retoma – não o samba – mas a linhagem soul na música brasileira. Lembra muitas vezes o estilo de cantar de Cassiano, isso quando não investe no rap, o que faz em duas faixas. O problema é que a adesão às batidas eletrônicas, notadamente o drum’n’bass, acaba por engolfar tanto as melodias como a performance vocal.
No encarte, o rapaz substitui as letras por comentários acerca das faixas, que são rotuladas uma a uma pelo próprio como ‘‘samba jazz’’, ‘‘samba-lounge’’, ‘‘drum’n’bossa’’ e por aí vai. O poeta carioca Bernardo Vilhena aparece como co-autor de pelo menos metade das composições. Max enxerta várias delas com trechos de clássicos da MPB, ora na forma de citações literais ou parafraseando versos sobre as próprias frases melódicas originais.
O procedimento inclui ‘‘Canto de Ossanha’’ (de Baden Powell e Vinícius de Moraes) em ‘‘Afrosamba’’, ‘‘Sonho de um Carnaval’’ (de Chico Buarque) em ‘‘Pra Você Lembrar’’, ‘‘Fica Mal com Deus’’ (Geraldo Vandré) em ‘‘Ela disse Assim...’’ e ‘‘País Tropical’’ (Jorge Benjor) em ‘‘Rapadura’’. Rendido aos loops e grooves programados, no entanto, o filho de Simonal mais esconde do que mostra as homenagens.
É o perigo que ronda o também disco de estréia de Lucas Santtana. Aqui é o deslumbramento com os timbres obtidos em laboratório (o produtor Chico Neves soltou a mão na busca de texturas) que quase põe a pique as idéias do músico, que tocou flauta durante três anos e meio na banda de Gilberto Gil. Todo o tratamento musical das faixas é percussivo, com as batucadas das ruas de Salvador mesclando-se a berimbaus e guitarras funkeadas.
O repertório inclui 11 composições de própria autoria (algumas em parceria com Quito Ribeiro, Moreno Veloso e Pedro Sá) e duas versões – uma de Herbert Vianna e outra de James Brown. Lucas tenta cantar como Caetano Veloso, do qual sampleia uma vinheta da clássica ‘‘Tropicália’’ na faixa de abertura, assim como o riff de ‘‘Sítio do Pica-Pau Amarelo’’ de Gil.
A influência é gritante em faixas como ‘‘Inho, inho’’, ‘‘Itapuã ano 2000’’ (esta gravada por Daniela Mercury em seu novo álbum Sol da Liberdade) e ‘‘Mensagem de Amor’’ (versão para a canção de Herbert Vianna). Mas curiosamente nestas duas últimas composições, o discípulo consegue driblar a sombra do mestre e impor seu timbre. São as melhores faixas de um disco desigual.Chegam às lojas os CDs de estréia dos cantores-compositores Max de Castro e Lucas Santtana
DivulgaçãoMax de Castro, filho caçula de Wilson Simonal compôs, cantou, arranjou e produziu seu disco de estréiaDivulgaçãoLucas Santtana mescla farta percussão, timbres eletrônicos e guitarras funkeadas

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