A roupa adequada para cada música
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Adriana Ito<br>Reportagem Local 
Na canção ''Eu te amo'', Chico Buarque e Tom Jobim conseguiram criar talvez a letra mais ''ambidestra'' da música popular brasileira. ''Eu te amo'' pode ser - e foi - cantada por um homem, uma mulher ou um casal. O verso ''Seu paletó ainda amassa meu vestido'' pode soar naturalmente como ''Meu paletó ainda amassa seu vestido'' e assim por diante, no retrato de um amor visceral.
Mas não são apenas as diferentes vozes/personagens que fazem dela uma nova música a cada gravação. O arranjo de cada versão é o que ajuda a vestir a melodia com roupagens distintas. Isso ficou muito claro para quem teve o privilégio de conferir o arranjo de André Mehmari para piano, quinteto de sopros e cordas. Mehmari fez de ''Eu te amo'' uma nova música e ao mesmo tempo ressaltou tudo o que ela tinha de melhor, em uma versão instrumental definitiva. O público que lotou o Teatro Ouro Verde no concerto do último dia 20 ficou no mínimo embevecido com tão magnífica declaração de amor.
É com acertos como este que o pianista vem conquistando cada vez mais espaço como compositor e sobretudo arranjador. Em entrevista anterior ao concerto, Mehmari admitiu que as encomendas de arranjos têm crescido tanto que chegam a superar a demanda de trabalho como instrumentista. Este reconhecimento é uma ótima deixa para se chamar a atenção sobre essa função tão subestimada dentro da produção musical.
Para o pianista, arranjar é mais do que transcrever uma música para uma outra formação. ''Arranjar é fazer uma nova música trazendo ângulos não óbvios do original e ao mesmo tempo preservando a obra em questão. Este é um desafio: equilibrar o novo com o fundamental, com o que a música tem de essencial'', define.
Para não repetir ideias de outros arranjadores nem ser influenciado por elas, Mehmari sempre procura voltar à versão mais original possível de uma música. Ele admite ainda que gosta de transpor barreiras de tempo e espaço em seus arranjos como, por exemplo, emoldurar uma criação de José Miguel Wisnik com um contraponto bachiano. ''Arranjo é o que arredonda essa viagem, torna viável essa ponte'', aponta.
No arranjo para Insensatez, do Tom, Mehmari começa pela segunda parte e cita a primeira só no final. Em Águas de Março, buscou um caminho completamente diferente para gravar com Ná Ozetti.''Procurei uma nova música dentro dela'', explica-se. Questionado se não é preciso muita ousadia para mexer em clássicos como esses, o músico é enfático: ''Sem ousadia não se faz música criativa. Ousadia e respeito pela música e pela tradição. Não sou mero perpetuador, mas também não coloco bigodes na Monalisa.''
Na sua lista de grandes arranjadores, constam nomes como Dori Caymmi, Vince Mendoza, Maria Schneider, Proveta (Naylor Azevedo), Bill Evans, Claus Ogerman, Duke Ellington e Charles Mingus. E se o arranjo sempre foi, para ele, algo muito próximo da composição, quando se trata de suas próprias obras, composição e arranjo se misturam. ''Ambas acontecem de forma simultânea'', revela.


