A ROTINA SOFRIDA DOS 'SEM GLAMOUR'
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de março de 2001
Simone Mattos e Francelino França De Curitiba 
O grupo de teatro Filhos do Beco realizou três apresentações no Fringe, no Teatro Londrina. Os 23 integrantes brasilienses apresentam Nó, espetáculo que saltou das salas de aula para os palcos. Oriundos de São Sebastião (cidade satélite de Brasília), os atores são nutridos pela fantasia de estar em cena no 10º Festival de Teatro de Curitiba. As dificuldades enfrentadas por eles ilustram a realidade em que os grupos de teatro sobrevivem.
Em Curitiba, estão alojados na precária Casa do Estudante Universitário (CEU), desembolsando R$ 5,00 a diária por pessoa. O pagamento foi feito com cheque pré-datado. O grupo almoça na região central de Curitiba por R$ 2,30 (com direito a refrigerante e banana). Jantar, nem todos os dias. Às vezes, compram 50 pães para aplacar a fome. Lidiane Leão, diretora do espetáculo Nó, diz que negociou com a organização do FTC entrar no Fringe (mostra paralela), depois que o processo de seleção dos grupos havia encerrado. Obteve êxito após quatro dias de negociações. Nas 23 horas de duração da viagem que separam Brasília de Curitiba, a ansiedade tomou conta e se questionavam: Será que vai ter público?, O que vamos comer?.
Eles conseguiram a verba para as passagens na Secretaria de Cultura do Distrito Federal, R$ 500,00 com a Universidade de Brasília e R$ 900,00 arrecadados numa festa. Para viabilizar a vinda seriam necessários R$ 11 mil. Eles conseguiram apenas 40%. Apesar de tudo, está valendo a pena, principalmente pela experiência de assistir a outros espetáculos, admite Francis Wilker, que também dirige o grupo.
Nó surgiu no projeto Arte e Cidadania, sendo apresentada num festival escolar e no Congresso de Arte Educadores, da capital federal. Formado por estudantes do período noturno de uma escola de São Sebastião, os atores ensaiam nos fins de semana, ocupando a quadra de esportes e salas de aulas desocupadas. Impulsionados pelo sucesso das apresentações, o Filhos do Beco chegou a pisar no palco do solene Teatro Nacional, de Brasília. A importância do acontecimento para a pequena São Sebastião influenciou até na formação de platéia. Maria de Oliveira, mãe da atriz Ivone de Oliveira, nunca havia entrado num teatro. Nossa, assim que é teatro., exclamou admirada. Agora, incentiva a filha a não faltar aos ensaios.
A crítica ácida à realidade social brasileira foi transportada para o palco. Pobreza e violência fazem parte do cotidiano dos atores. Por isso, o Brasil de Nó foi encurralado num beco. Passei a conhecer um outro mundo. O teatro me fez aprender a gostar mais das pessoas, revela a atriz Carmem Martins.
Os atores brasilienses acreditam que poderia haver por parte da organização do FTC um apoio efetivo para a divulgação dos espetáculos apresentados no Fringe. Outra sugestão seria uma parceria para hospedagem e alimentação, com o Sesc, por exemplo. As diárias dos hotéis recomendados pelo FTC estavam acima das possibilidades deles. Como todos os grupos participantes do Fringe, eles esperam ganhar no show do milhão, que significa se sobressair numa vitrine em que aparecem mais de 100 grupos. Ou produtos, como diz a mensagem publicitária do evento.


