Há pelo menos dois fatores que evidenciam ainda mais ‘‘Arquitetura da Flor’’, 11º álbum-solo do cantor, compositor e maestro Francis Hime – além, é claro, do selo de qualidade sempre atestado aos seus projetos. Primeiro: em vez dos arranjos orquestrais, um quinteto apóia os sambas, Bossa Nova e brevidades jazzísticas arquitetados pelo maestro. Segundo: Hime musicou um poema inédito de Cartola, oferecido a ele pela neta do compositor mangueirense e ícone da MPB. ‘‘A forma precedeu o conteúdo e condicionou, inclusive, o repertório’’, diz Francis Hime, 66 anos. ‘‘De certa forma, eu puxei meu próprio tapete ao optar por uma sonoridadede mais despojada, quase experimental. ’’
  A letra inédita de Cartola transformou-se em samba. ‘‘Sem Saudades’’ veio-lhe às mãos no ano passado quando mandou subir seu piano à Escola de Samba Mangueira e tocou para a comunidade. Entre os presentes estava Nilcemar, neta de compositor, que julgou ser Francis merecedor do raro documento encontrado no baú do avô. Fez muito bem! ‘‘Ao mesmo tempo fiquei honrado e também com muita responsabilidade ao lidar com algo tão valioso’’, lembra Hime, que convidou Zélia Duncan para compartilhar o microfone. Outra participação especial é de Nina Becker, cantora da Orquestra Imperial, que deita seu timbre cristalino em ‘‘História de Amor’’.
  Trocando em miúdos, ‘‘Arquitetura da Flor’’ (gravadora Biscoito Fino) é um título especial na discografia de Hime, um dos notáveis autores brasileiros e que transita com desenvoltura entre o erudito e o popular. Ao todo, doze músicas, das quais três regravações: ‘‘Gozos da Alma’’ (lançado por Leila Pinheiro no ano passado), ‘‘Palavras Cruzadas’’ (com letra escrita por Toquinho na década de 80) e ‘‘A Dor a Mais’’ (última parceria com Vinicius de Moraes, registrada originalmente em meados dos anos 70). O projeto deve render um DVD.
  Com o poeta Geraldo Carneiro compôs seis canções de safra recente – feitas há coisa de dois anos para cá – como ‘‘O Mar do Amor Total’’, concebida durante as gravações. Inaugura parceria com Simone Guimarães em ‘‘Cad꒒, mas é com Olívia Hime que fez uma das mais belas canções dos últimos tempos, ‘‘Desacalanto’’. Um trecho: ‘‘A Noite se encosta/ Num poste de luz/ Em pó se desfaz/ Em fragmentos azuis/ Aos pés de um menino/ A cidade afundou/ Levando o vazio/ De quem não sonhou’’. Lindo!
  A sonoridade enxuta forma uma espécie de conceito de ‘‘Arquitetura da Flor’’ em que Francis Hime ao piano se junta a Jorge Helder (baixo), Ricardo Silveira (violão), Téo Lima (bateria) e Marcelo Costa (percussão) – além de intervenções de sopro aqui, ali ou acolá. O álbum sustenta-se principalmente pelo fato de Francis Hime arquitetar poeticamente sua rosa musical extraindo-lhe a seiva com extrema delicadeza. E elegância.
  A seguir, o principais trechos da entrevista que Francis Hime concedeu à Folha2 em que fala no novo disco, parceria e fatos pitorescos de sua trajetória.
Podemos dizer que ‘‘Arquitetura da Flor’’ é um disco que ‘‘desconstrói’’ Francis Hime?
  (risos) De uma certa forma é porque em vez de valorizar as melodias e as harmonias, vestindo-as com arranjos robustos, eu preferi valorizá-las ao tratar a matéria bruta da canção.
Então o projeto vem a ser uma referência na sua discografia?
  É, é um outro caminho que eventualmente num início de carreira seria mais lógico de acontecer, mas pra mim aconteceu agora.
É uma tendência a ser seguida, Francis?
  Talvez, talvez. O Tom Jobim caçoava um pouco da gente quando fazia planos. Ele dizia:‘‘Imagina, quem disse que os planos serão seguidos’’. Então, eu posso dizer que por enquanto é uma tendência que pode ser seguida.
Teria sido o destino que fez você ser escolhido para musicar a letra inédita do Cartola? Havia alguma proximidade sua com a neta dele?
  Eu não a conhecia. Houve um evento, organizado por Geraldinho (Carneiro), em que levamos um piano de cauda para a Mangueira, durante uma feijoada, quando toquei para a comunidade. Foi quando recebi da Nilcemar, neta do Cartola, no palco esse poema... Fiquei na maior emoção e ao mesmo tempo com muita responsabilidade. Isso foi em meados do ano passado, tipo agosto por aí, e dois meses depois eu fiz o samba.
Essa poema lhe soou como samba, não poderia ter tido um outro gênero?
  Foi tudo muito rápido, acho que Cartola me soprou um pouco a melodia. Interessante você ter me perguntado isso porque normalmente eu olho um poema e fico me perguntando se daria um bolero, uma canção, um samba... Mas no caso de Cartola eu optei por um samba mesmo.
Há outras letras inéditas do Cartola, você tem conhecimento?
  Eu sei que havia três poemas inéditos e ela escolheu esse para mim. Ela não me mostrou os outros dois. A Nilcemar me deu o manuscrito e eu não tenho idéia de quando foi feito, qual a data.
O Geraldinho Carneiro declarou que você é o parceiro mais promíscuo da MPB...
  (risos) E continua falando.
Mas parece que o ‘‘casamento’’ com ele deu certo e você sossegou um pouco o facho, não é?
  (risos) Mais ou menos. Realmente tenho composto bastante com o Geraldinho, mas tem a Simone Guimarães no disco. Fiz recentemente um samba com Eduardo Gudin, gravei um samba ‘‘Recomeçar’’ com a Tereza Saraiva. Outro dia a Maitê Proença me mandou um poema muito bonito.
Sério?
  É. A Maitê disse que havia falado com o Chico Buarque que mandou enviar para mim ou para a Sueli Costa. Ela disse: ‘‘Preferi enviar a voc꒒. É possível que nasça uma parceria. Por isso eu digo: o Geraldinho não está muito seguro nessa história de ‘‘casamento’’.(risos)
Há algum compositor ou compositora com quem você gostaria de trocar umas idéias e quem sabe começar uma parceria?
  Há algum tempo eu quero fazer alguma coisa com o Caetano e com o Djavan. Uma vez mandei um samba-canção ao Caetano, que gostou muito, mas acabou não acontecendo. Parceria é algo meio mágico: nunca se sabe quando começa, quando termina, quando vai dar certo. A graça da parceria está nisso.
O Aldir Blanc voltou com a compor com o João Bosco. E você e o Chico Buarque vão novamente juntar as idéias musicais?
  (risos) Não sei... Minha parceria com o Chico levou seis anos para começar...Tem uma história engraçada: logo que a gente se conheceu os amigos diziam que tínhamos que compor juntos e escolhemos uma música para ele colocar letra. E o Vinicius (de Moraes) ficou morto de ciúmes e disse: ‘‘Essa ninguém tasca, essa é minha’’. E acabou que o Vinicius não fez a letra na época, isso em 66, e viria a fazer a letra em 1973 que é ‘‘A Dor a Mais’’, que eu regravei nesse novo disco. E com isso minha parceria com o Chico ficou adiada por seis anos porque ‘‘Atrás da Porta’’ é de 1972. Por isso digo: parceria é algo imprevisível.
Sua formação é erudita...
  (interrompendo) É e não é. Comecei a estudar piano clássico aos seis anos muito a contragosto e acabei me enveredando pela canção através da música popular. Resolvi seguir a carreira de músico muito por influência de Vinicius de Moraes, que me incentivou muito. Lá pra frente, em 86, com a carreira consolidada, é que me reconciliei com a música clássica e comecei a escrever peças eruditas, sinfonias, cantatas... Talvez a peça mais significativa seja ‘‘Sinfonia do Rio de Janeiro’’ que está na fronteira entre a música erudita e popular.
Mudando um pouco de assunto, você perdeu o medo do palco?
  Eu tinha pânico de palco, mas de uns vinte anos para cá passei a adorar. Inclusive, eu bebia muito antes de fazer show até que um belo dia, no Teatro da Praia, em Belém, meia hora antes da apresentação passei mal e tive que fazer o show a seco. Não tomei nada e foi maravilhoso. Daí me perguntei: ‘‘Poxa, é assim que se brinca?’’. De lá para cá fiquei entusiasmado e cada vez mais gosto de fazer shows. Aliás, faz muito tempo que não vou a Londrina (NRa última vez foi no Teatro Ouro Verde, em 85).


SERVIÇO:

- Disco ‘‘Arquitetura da Flor’’, de Francis Hime. Gravadora Biscoito Fino. Preço sugerido: R$ 28,90. O disco também pode ser adquirido pelo site: www.biscoitofino.com.br

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