A revolução da paixão
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de março de 2002
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha 2 
As revoluções podem ser encaradas como paixões coletivas. Paixões que acontecem em determinado período histórico e possuem tempo de existência específico. Quando a paixão se transforma em marasmo, a força revolucionária se esvai, como se escorresse pelo ralo.
Também podem ser encaradas como revoluções as paixões individuais, aquelas que impulsionam o homem para um ideal ou para os braços de uma outra pessoa. Quando o fogo da paixão se extingue, a revolução entra em declínio, deixando de iluminar a vida, de fazer sentido.
Em seu novo romance, No Coração das Perobas, o escritor paranaense Domingos Pellegrini coloca os dois casos lado a lado. Uma história que, além de relembrar os grandes movimentos revolucionários brasileiros do século 20, mostra o nascimento de uma paixão entre um homem e uma mulher e como essa paixão torna-se combustível para a busca da justiça.
Lançado pela Editora Record, o livro narra duas histórias simultâneas que acabam se cruzando pelas mãos do destino. A primeira seria a de Juliana, uma jovem londrinense, professora de capoeira e estudante de pós-graduação numa universidade local. Sua pesquisa em história é sobre a Coluna Prestes, um dos mais heróicos movimentos revolucionários ocorrido no Brasil entre 1924 e 1927. Seu trabalho está fundamentado no depoimento de um velhinho, residente em Foz de Iguaçu, chamado Juliano. Ele seria o último homem vivo que participou do movimento e tem muito o que contar.
Em suas viagens para entrevistar Juliano, a jovem conhece Miguel, um fotógrafo mais velho que ela, que passa a acompanhá-la em sua pesquisa. Lentamente a paixão envolve o casal. O drama é que cada um possui uma montanha de problemas, individuais e sociais. A união de ambos aparece como uma maneira eficiente de resolvê-los com honestidade e integridade.
O depoimento de Juliano para a jovem pesquisadora ocupa mais da metade do romance. Ele relata à moça como ingressou, com pouco mais de 13 anos de idade na Coluna sob a chefia de Miguel Costa, Siqueira Campos e Luiz Carlos Prestes. Órfão e pobre, acompanhou os revolucionários muito mais por aventura e falta de destino do que por ideologia. O personagem, no desenvolvimento de seus valores morais, descreve os hábitos e o cotidiano da Coluna que praticamente atravessou o país a pé sob um ponto de vista heróico e otimista.
Em No Coração das Perobas, Domingos Pellegrini retoma idéias apresentadas em seus romances anteriores Questão de Honra (1996) onde narra a Guerra do Paraguai sob uma ótica própria; Terra Vermelha (1998) em que apresenta uma história romanceada da colonização do Norte do Paraná; e O Caso da Chácara Chão (2000) onde mostra como o cotidiano do cidadão urbano é passível de qualquer tipo de corrupção.
A literatura que Pellegrini vem desenvolvendo em seus romances é um caso único na literatura brasileira produzida atualmente. Seu realismo é um realismo que não pode ser encontrado na violência contra o indivíduo, mas no realismo manifestado na maneira de se relacionar com ela. Tudo indica trata-se de um dos únicos escritores que investe no deslocamento de valores cotidianos para valores sociais mais abrangentes. Investindo nessa temática, coloca em prática uma narrativa realista, um espelho dos pequenos gestos refletindo os grandes problemas. Uma literatura aqui, no espaço onde colocamos os pés, e agora, no tempo em que ainda temos pés.
Em sua abordagem, os governantes do Brasil são corruptos porque o povo também é corrupto. Mas isso não representa o todo. O otimismo da narrativa de Pellegrini revela um fato que pode passar despercebido: uma parte da população cultiva os valores como honestidade e integridade, mas o fazem de maneira discreta, sem alardes, como parte de suas condutas rotineiras. Esta seria a revolução possível, prática e palpável.
Mesmo questionando os valores revolucionários, No Coração das Perobas apresenta uma visão romântica da rebeldia ideológica. Como uma necessidade da humanidade em encontrar melhores caminhos para o bem-estar comum. Alguns leitores podem desviar seu interesse para a história do revolucionário Juliano, outros para a história de amor entre Juliana e Miguel. Outros ainda para os valores morais defendidos por cada personagem no eterno embate entre o bem e o mal. Outros ainda podem se incomodar pela repetição de ações tumultuadas por referências histórias desprovidas de novidades.
Independente de qualquer foco de leitura, No Coração Das Perobas possui uma narrativa capaz de conquistar o grande público. Assim como era esperado de Terra Vermelha e O Caso da Chácara Chão. A linguagem ágil e oral, aliada ao enredo temperado com substâncias amorosas, impulsionaria esse movimento. Fica evidente que o otimismo apesar da indignação da literatura de Domingos é uma porta cada vez mais ampla.
Serviço:
No Coração das Perobas, de Domingos Pellegrini, Editora Record, 436 páginas, R$ 40,00.
Eu tinha vinte e um anos, pela lei só agora chegava na tal maioridade, mas na verdade era um veterano cansado de revolução, por já desconfiar então duas certezas de hoje. Primeiro, que toda revolução, sempre em nome do povo, usa o povo. Segundo, que toda revolução tem quem é bom, quem é mau, quem é sonhador, quem é prático, quem vive a serviço da revolução, quem vive se servindo da revolução, como tem os que pensam alto, os que sentem de verdade os que estão dizendo, os que querem mesmo mudar a vida pra melhor, e os que estão de arma na mão, prontos para morrer também, mas só por aventura, pela diversão, e às vezes são os melhores na luta porém, embora morrendo cedo porque os melhores morrem cedo, sem esquecer de lembrar dos que só estão na revolução pra pegar o tal poder, seja como ditador, seja como inspetor de quarteirão, e até os que entram na pior batalha só para pilhar morto e saquear casa.
(Fragmento de No Coração das Perobas)


