A revolta das palavras
Marcos Losnak
Especial para a Folha 2
Palavras não são simplesmente palavras, são instrumentos carregados de significados. Inventadas, usadas e abusadas pelos homens, as palavras não possuem vontade própria, estão sempre a serviço da fala, da escrita. Podem ser utilizadas tanto para bem como para o mal, tanto para a verdade como para a mentira. Enfim, são escravas que repousam aprisionadas em dicionários.
Mas e se um belo dia elas se revoltassem contra os abusos de uso inadequado? E se uma belo dia, cansadas de serem usadas de modo desonesto, se revoltassem? E se um dia, numa insurreição, se recusassem a esconder e dissimular as falsidades humanas? Seria um confusão admirável. Essa possibilidade, imaginária e adorável, está em A Revolta das Palavras, obras póstuma de José Paulo Paes (1926 - 1998) lançado pela Editora Companhia das Letrinhas com ilustrações de Angela Lago. Destinada ao leitor infanto-juvenil, o poeta, tradutor e crítico paulista constrói um bela fábula sobre as falsidades do mundo atual, onde os interesses individuais são valorizados em detrimento ao bem comum.
José Paulo Paes fala sobre o dia em que as palavras, cansadas de serem usadas de maneira errada por pessoas sem escrúpulos, realizaram uma grande reunião dentro do dicionário - local onde repousam seus reais significados.
As mais indignadas eram as palavras verdade e mentira. A verdade afirmava ser constantemente usada por pessoas desonestas com o único objetivo de se aproveitarem da ingenuidade das pessoas de boa-fé. A mentira alegava ser abusada por homens desonestos que sempre chamavam de mentirosos pessoas que diziam algo verdadeiro que poderia prejudicá-los. Cada uma se queixava de ser usada, sem direito de escolha, como disfarce de más intenções.
Depois de muita discussão chegaram a uma solução: a partir daquele dia se recusariam a ser mal utilizadas. Fariam elas próprias, com a ética de seus significados, uma revolução. Toda vez que alguém utilizasse uma palavra de maneira indevida, elas próprias se encarregariam de reverter o problema, substituindo pela palavra correta. Cada vez, por exemplo, que uma pessoa dissesse ou escrevesse uma mentira disfarçada de verdade, ou uma verdade convertida em mentira, elas reparariam o erro.
E assim aconteceu. No dia seguinte os anúncios dos jornais diziam que o produto anunciado não era o melhor do mundo, os cartazes dos supermercados afirmavam que seus preços não eram o mais reduzidos da cidade. Os políticos, em entrevistas, ficaram assustados ao ouvirem suas próprias bocas dizerem que desejavam apenas encher o bolso de dinheiro e não administrar os bens da sociedade.
A confusão não foi pequena. Todas as palavras ficaram satisfeitas, recompensadas. Não exatamente todas, pois a palavra incompreensão, indignada, reclamava que os poetas continuavam escrevendo mentiras, tipo a laranja madura é um sol sobre a mesa, sem que nada acontecesse, sem que nada fosse corrigido. Com uma boa conversa, a verdade e a mentira se encarregaram de explicar que a poesia dizia as coisas de modo tão original, tão fora do comum, que parecia estar mentindo o tempo todo, mas na realidade não estava.
A revolta das palavras não durou muito tempo, pois as pessoas abusaram tanto das palavras, que elas próprias estavam esgotadas, cansadas, exauridas e letárgicas. Mas até hoje existem alguns focos de revoltas. Embora sutis, ainda permanecem ativas. Para encontrá-las, basta encostar o ouvido no dicionário. Executando tal gesto, é possível ouvir, em local silencioso, a indignação das palavras maltratadas. Algumas delas, em sussurro, dizem que gostariam de ser tratadas como um animal de estimação, como um carro novo, ou como uma recheada conta bancária. Outras, em total desespero, desejam que alguém arranque a página em que estão inseridas, amasse-a e atire no lixo.
- A Revolta das Palavras de José Paulo Paes, ilustrações de Angela Lago, Editora Companhia das Letrinhas, 32 páginas, R$ 16,00.
LANÇAMENTOS
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Arte - Almeida Júnior, o mais importante pintor brasileiro do século 19, é tema do livro José Ferraz de Almeida Júnior de autoria de Nereide Schilaro Santa Rosa. Lançado pela Editora Moderna, o livro apresenta para crianças a vida e obra do artista paulista que representa um marco das artes plástica da época. Rompendo a prática vigente de pintar a elite burguesa, pautou seu trabalho por uma temática regionalista, retratando o homem simples do interior, o caipira do interior de São Paulo. José Ferraz de Almeira Júnior de Nereide Schilaro Santa Rosa, Editora Moderna, consultoria de Angela Curtopassi Braga, 32 páginas, R$ 13,00.
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História - A expansão marítima do século 16, que provocou a descoberta do Brasil, foi pautada pelo interesse comercial das especiarias do oriente. A Magia das Especiarias, dos historiadores Janaína Amado e Luiz Carlos Figueiredo oferece um amplo panorama sobre as especiarias (temperos, aromas e corantes) que seduziram a Europa como ouro. Lançado pela Editora Atual, a obra oferece iconografia de época, informações históricas, geográficas, botânicas e simbólicas das especiarias. A Magia das Especiarias - A busca de especiarias e a expansão marítima de Janaína Amado e Luiz Carlos Figueiredo, Editora Atual, 32 páginas, R$ 10,00.
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Tato - Fugindo à norma convencional dos livros, a Editora Salamandra está lançando dois títulos para crianças pequenas que se baseiam no tato. Toque e Sinta - Gatos e Toque e Sinta - Cães reproduzem texturas para ser tocadas com as mãos. No volume Gatos, por exemplo, pode-se sentir a maciez dos pêlos e a aspereza da língua dos felinos. Em Cães, pode-se sentir a suavidade das orelhas e a textura do focinho dos cães. Os livros podem ser utilizado por crianças deficientes visuais. Toque e Sinta: Gatos e Toque e Sinta: Cães, Editora Salamandra, 12 páginas, R$ 14,00 cada.





