A REVOLTA DA DIGNIDADE
Inferno. Este era o sinônimo da Marinha para os negros no começo do século passado. Os motivos do desgosto eram múltiplos. Havia o regime de semi-escravidão e, principalmente, os castigos físicos. A coisa funcionava mais ou menos assim: o alistamento era feito na marra e incluía principalmente pessoas de baixa renda. Uma vez alistado, o sujeito era obrigado a passar 15 anos na Marinha. As condições eram sub-humanas, com soldo insuficiente e carne podre como ração.
A situação, insustentável, gerou revolta. E assustou o país quando vários navios da terceira maior frota do mundo na época se amotinaram, apontando os canhões para o Rio de Janeiro, então capital federal. O fato ficou conhecido como a Revolta da Chibata e recebeu um tratamento secundário da história ''oficial''. Para deixar as coisas às claras, os pesquisadores londrinenses Agnaldo Kupper e Paulo André Chenso estão lançando o livro paradidático ''O Navegante Negro e a Chibata A Revolta dos Marinheiros de 1910''.
Além de levantar um episódio pouco discutido, o tratamento da obra inclui óticas diversas, mostrando o contraste entre um Rio de Janeiro reformado, com suas ruas apertadas transformadas em largas calçadas e avenidas, e a vida miserável dos marinheiros.
A disciplina era rígida. O marujo que cometia uma falta era colocado a ferros na solitária por três dias. Se o erro se repetisse, a solitária se estendia por seis dias. Uma terceira falta era respondida com 25 chibatadas.
No dia 22 de novembro de 1910, o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes foi suspenso em um ferro do navio Minas Gerais para ser chicoteado. A tripulação assistiu calada ao açoite mas, à noite, a revolta ocorreu. Oficiais foram mortos e tiros de aviso sobrevoaram a cidade. O marinheiro João Cândido assumiu o controle do encouraçado Minas Gerais. A rebelião se espalhou por outras embarcações. A capital do País ficou cercada por navios rebelados.
As reivindicações eram claras: ''Não queremos a chibata. Queremos vida de gente'', dizia um comunicado. Não eram interesses políticos ou financeiros. Apenas não queriam apanhar mais. Em caso de resposta contrária, a cidade seria bombardeada, assim como as embarcações que não aderiram ao levante.
''A maior importância deste movimento foi a modernização da Marinha brasileira. O tratamento era bestial. Os marinheiros só se diferenciavam da escravidão por causa de um pequeno soldo. Se não tivesse o acordo, talvez eles tivessem bombardeado a capital federal, porque o negócio era para valer. Era uma situação gravíssima'', comenta o médico e historiador Paulo André Chenso.
Após muita negociação, os marinheiros conseguiram um acordo com o governo de Hermes da Fonseca. Os navios rebelados ancoraram no porto com a promessa do fim da chibata e da anistia aos revoltosos.
O governo, porém, usou várias artimanhas para se vingar dos amotinados. Eles foram presos em condições degradantes. Uma parte do grupo foi enviado ao Acre numa viagem sem volta, dentro de um cargueiro. Muitos foram fuzilados ou jogados no mar. Outro grupo, que incluía João Cândido, foi enviado para a Ilha das Cobras. Na solitária, não recebiam água ou comida. Com o pretexto de desinfetar o ambiente, os guardas jogaram cal virgem na cela. Poucos sobreviveram. João Cândido foi internado em um manicômio e, posteriormente, preso na Ilha da Maldição. Com ajuda da Irmandade da Igreja Nossa Senhora do Rosário, Cândido foi julgado com outros rebeldes e absolvido. Morreu em 1969, aos 89 anos.
''Após a revolta, houve a traição do governo. Os crimes cometidos por quem está fora do poder são sempre vistos como hediondos. Os cometidos pelo poder são considerados ações'', ressalta Chenso.
Enquanto os revoltosos morriam, o assunto foi perdendo importância no noticiário, caindo no esquecimento. Por muito tempo a Revolta da Chibata foi vista como um acontecimento protagonizado por arruaceiros. ''A história foi abafada. Durante todos esses anos a memória de João Cândido nunca foi estabelecida. Ele continua até hoje visto como marginal'', explica o autor.
Uma das características da obra é o texto solto, com simulações do raciocínio dos protagonistas. A estratégia aproxima os fatos da vida comum, contrapondo à imagem heróica normalmente imposta pelas versões oficialescas. A abordagem é abrangente, respeitando o contexto da época, evitando rótulos maniqueístas.
Ao mesmo tempo em que divulga o novo trabalho, a dupla já está com outra obra no prelo, que também vai tratar de uma rebelião obscurecida pela história: a Revolta dos Malês. Eles eram escravos que pretendiam fundar um Estado Muçulmano em Salvador. A revolta ocorreu em 1835 e resultou em muitos mortos. O livro deve chegar ao mercado no mês que vem em forma de romance histórico, cuidadosamente detalhado, com 370 páginas. ''O Navegante Negro e a Chibata'' saiu pela FTD com 63 páginas e distribuição nacional.





