A morte está onde sempre esteve. Naquele lugar que todo mundo sabe onde fica quando completa 70 ou 80 anos. Está onde sempre esteve. Naquele lugar onde a poeira abaixa e os olhos conseguem olhar cada grão de tempo.
O que pensa um homem que sabe que a morte se aproxima? Entre as possíveis respostas está a de Valter Hugo Mãe no romance ''A Máquina de Fazer Espanhóis''. Uma obra que aborda a difícil caminhada em direção ao pó.
Valter Hugo Mãe estará no Brasil para lançar o livro na próxima sexta-feira, dia 8, dentro da programação da Flip - Festa Literária de Paraty. Trata-se de seu segundo romance publicado no país. O primeiro, ''Remorso de Baltazar Serapião'', chegou às livrarias no final de 2010 pela editora 34.
Apontado como a grande revelação da literatura lusitana dos últimos anos, Valter Hugo Mãe entrou para o mundo das letras através da poesia. Após publicar vários volumes de poesia, passou a se dedicar à prosa. É autor de quatro romances, todos escritos sem uma única letra maiúscula. Nenhuma maiúscula em começo de frase, nem em nomes próprios. Para ele, a utilização apenas de minúsculas favorece a oralidade do texto e aceleram a leitura. Até para seu nome prefere a grafia em minúsculas.
Lançado pela editora Cosac Naify, ''A Máquina de Fazer Espanhóis'' narra a história de António Jorge da Silva, um barbeiro português de 84 anos que, após a morte da esposa, passa a residir num abrigo para velhos. Sua consciência está ligada de que está ali para aguardar a morte.
Silva é um sujeito atormentado pela nova situação. Durante as noites recebe a visita de misteriosos pássaros negros. Aves que invadem seu quarto e seus pensamentos. Fantasmas do passado. Uma metáfora delirante de remorsos e proximidade da morte. A necessidade de acertar as contas com o passado para seguir em direção ao pó. Sem peso na bagagem.
No abrigo ele conhece outros velhos, cada um com seus problemas emocionais, cada qual com suas doenças. Cada um em seu desamparo. Uma solidão brutal que impulsiona relações de amizade, tudo para suportar a real e física morte que abre a porta.
Além de um livro sobre os impasses da terceira idade, ''A Máquina de Fazer Espanhóis'' é uma história sobre o sentido da amizade entre os homens. O autor retrata todo o processo masculino de humor, piadas, segredos, bobagens, cumplicidades, loucuras, palavrões, baixarias e insanidades. Toda a coleção de formas estúpidas dos homens trocarem carinho na amizade.
Silva se converte num novo homem que descobre a amizade e, principalmente, seu sentido. Diante da proximidade do fim, com o corpo não respondendo aos pensamentos, só as relações com seus iguais parecem fazer sentido. Não há mais necessidade da sedução feminina, apenas alguém que entenda o que está acontecendo e, se possível, divida essa nova sensação de caminhar para o pó com um câncer na próstata.
Como pano de fundo da trajetória de Silva, o autor coloca a própria história de Portugal contemporâneo. Entre os personagens surge um sentimento de inferioridade em relação aos espanhóis. Tudo devido à prosperidade da Espanha após a criação da União Européia e as crises econômicas e sociais vividas por Portugal. O nascimento desse sentimento de inferioridade em relação ao país vizinho é o que dá título ao romance ''A Máquina de Fazer Espanhóis''. Como se os portugueses desejassem, antes de nascer em seu próprio país, nascer na Espanha.
Valter Hugo Mãe nasceu em Angola, em 1971. Ainda criança fixou residência em Portugal com a família. Formado em Direito, escreveu ''A Máquina de Fazer Espanhóis'' após a morte prematura do pai, vítima de câncer. Como o pai não tinha vivido a terceira idade, resolver criar uma velhice para o pai. Mais especificamente, criar uma maneira de olhar a velhice que o pai não teve oportunidade de viver.
Saudade, lembrança e esquecimento pontuam todo o romance. A saudade, no caso, não seria exatamente aquela que permaneceu presa na lembrança, gravada na memória. Mas a saudade de algo em construção. Saudade de algo que não foi vivido. Para cada lembrança, dois esquecimentos. Justamente naquele lugar onde a poeira abaixa e os olhos conseguem olhar cada grão de tempo.


serviço
A Má­qui­na de Fa­zer
Es­pa­nhóis
Au­tor - Val­ter Hu­go Mãe
Edi­to­ra - Co­sac ­Naify

  já não sou nin­guém, ra­paz, es­tou qua­se, di­ria eu. não di­ga is­so, se­nhor sil­va, ain­da há de se pôr fres­co. es­tá só no aba­ti­do, é com­preen­sí­vel de­pois do que acon­te­ceu. que doen­ça te­nho, Amé­ri­co, é o quê. não sei se é uma doen­ça, é só can­sa­ço, dá-lhe ner­vos. é co­mo ter ner­vos. ner­vos te­nho mui­tos. tem de acal­mar. sa­bes que os pei­xes têm uma me­mó­ria de se­gun­dos. aque­les pei­xes bo­ni­tos que vês den­tro dos aquá­rios pe­que­nos, sa­bes que têm uma me­mó­ria de uns se­gun­dos, ­três se­gun­dos, as­sim. é por is­so que não fi­cam lou­cos den­tro da­que­les aquá­rios sem es­pa­ço, por­que a ca­da ­três se­gun­dos es­tão co­mo num lu­gar que nun­ca vi­ram e po­dem ex­plo­rar. de­vía­mos ser as­sim, a ca­da ­três se­gun­dos fi­cá­va­mos im­pres­sio­na­dos com a ­mais pe­que­na ma­ni­fes­ta­ção de vi­da, por­que a ­mais ri­dí­cu­la coi­sa na pri­mei­ra ima­gem se­ria uma ex­plo­são ful­gu­ran­te da per­cep­ção de es­tar vi­vo. com­preen­des. A ca­da ­três se­gun­dos ex­pe­ri­men­tá­va­mos a po­de­ro­sa sen­sa­ção de vi­ver­mos, sem im­por­tân­cia pa­ra ­mais na­da, ape­nas o as­som­bro des­ta cons­ta­ta­ção. o amé­ri­co res­pon­deu-lhe, se­ria uma pe­na que não se vol­tas­se a lem­brar de mim, se­nhor sil­va, não gos­to des­sa teo­ria dos pei­xes, por­que as­sim não se lem­bra­ria de mim.
(Frag­men­to de ‘‘A Má­qui­na de Fa­zer ­Espanhóis’’, de Val­ter Hu­go Mãe)
Pá­gi­nas - 256
Quan­to - R$ 39,00

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