A revelação da temporada
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quinta-feira, 24 de outubro de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
As pistas de Londres já a acolheram com entusiasmo. Chegou a vez de conquistar o Brasil. Fernanda Porto, 33 anos, está lançando seu aguardado primeiro álbum pela gravadora Trama.
Convidada de Jô Soares na última segunda-feira, ela ofuscou os habituais gracejos do apresentador. O CD, homônimo, intensifica a mistura de bossa nova com drum'n'bass que tanto empolgou DJs nas últimas temporadas.
Cantora e compositora, ela se impõe no disco ainda como produtora, arranjadora e multiintrumentista tocando violão, piano, sax, guitarra e programação. O repertório reúne 14 faixas, entre as quais ''Só Tinha de Ser com Você'' (regravação de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira incluída na trilha da novela ''Um Anjo Caiu do Céu'') e a versão original de ''Sambassim'', antes de ser remixada pelo DJ Patife e virar hit nas paradas européias de música eletrônica.
As batidas sincopadas do drum'n'bass recobrem de ponta a ponta as canções, acelerando nas duas últimas faixas, quando ecoam timbres da vertente mais pesada do gênero. O ritmo, receptivo a fusões, cruza o maracatu em ''Baque Virado'', ganha compasso de reggae em ''Tudo de Bom'' e se alia a grooves funky em ''Amor Errado''. Em ''Jeito Novo'', ela canta em português e inglês enquanto que em ''1999'' envereda pelo canto lírico em latim.
O contraste das combinações poderá soar estranho a ouvidos arredios às experimentações pop, embora na entrevista concedida ontem à Folha a artista revele que a maioria de seu público seja mais ''ligada em música popular brasileira do que em música eletrônica''. A seguir, confira a conversa na íntegra.
Folha - Fale um pouco de sua formação. Você começou tocando piano clássico?
Minha relação com a música vem desde os 8 anos de idade, quando eu tocava flauta doce na escola. Na adolescência, fiz um curso intensivo de piano que era para durar 8 anos e acabei fazendo em dois. Depois, aos 16 anos, entrei na Faculdade de Música para entrar em contato com os músicos e adquirir conhecimento musical. Lá, tive aulas de composição e regência com o Koellreuter, que era mais experimentalista do que acadêmico. Foi ele quem me apresentou a música eletrônica e as pesquisas que se faziam na área. Paralelamente, fiz canto lírico para não ter problemas de voz. Logo que me formei, comecei a fazer shows cantando músicas de Cazuza, Titãs e Lobão. Em 1993, já subia no palco com uma banda e com o computador para soltar as bases.
Folha - Como surgiu a idéia de misturar canção com drum'n'bass?
O produtor e DJ Xerxes de Oliveira me apresentou o drum'n'bass por volta de 1997, durante uma feira de equipamentos musicais. Em seguida, viajei para Londres para conhecer o ritmo mais de perto, já que por aqui não tínhamos muitas informações. Fiquei lá dois meses observando como as pessoas reagiam àquelas batidas. Na bagagem, levei um CD-demo com algumas canções que traziam arranjos de drum'n'bass. Mas fiquei com medo porque na época só havia música eletrônica, não se faziam canções dentro do gênero. A surpresa é que a demo caiu nas mãos do Fatboy Slim (DJ e produtor inglês) e ele acabou gostando de duas músicas: ''Eletricidade'', que está no disco, e ''Pensamento'', uma parceria com o Arnaldo Antunes que ficou de fora.
Folha - Como seu trabalho foi recebido entre os DJs brasileiros?
No final de 1999, mostrei a demo para alguns DJs e eles diziam que era um trabalho ''interessante'', mas ficava nisso. No ano seguinte, fui num show do DJ Patife levando uma cópia da demo para ele ouvir. Ele ficou dois meses para ouvir. Um dia, ele me ligou perguntando se podia produzir um remix de ''Sambassim''. A música entrou num EP-coletânea da gravadora inglesa V Recordings e estourou nas paradas londrinas. Eu não acreditava naquilo, não conseguia entender como uma música cantada em português poderia conquistar o público inglês!
Folha - Todas as músicas do CD-demo foram incluídas em seu disco?
Escolhi 7 faixas, que passaram por uma revisão. Quando comecei a mexer nelas, as pessoas avisaram: ''se você começar a mexer, vai acabar fazendo outras músicas''. Foi o que aconteceu. No estúdio, gravei 22 faixas, das quais 14 foram escolhidas para entrar no disco. As 8 restantes estarão disponíveis na Internet.
Folha - Por que você gravou a música ''1999'' em latim?
O latim é a língua perfeita para o canto lírico. E nessa música, exercitei o que aprendi na Faculdade. Eu a compus para a trilha do filme homônimo de Toni Venturi, que me convidou para fazer a cena de uma cantora. No dia da gravação, cantei diante de 600 figurantes e o povo achou que eu estava dublando. Nos shows, é a música preferida do público.
Folha - Como foi a experiência de compor trilha sonora?
A minha forma de me aproximar do cinema é a mesma com que me aproximo da poesia. Tento ser sensível ao que vejo na tela, já que o filme tem cheiro, poesia e ritmo próprios. Além do ''1999'', assinei as trilhas dos filmes históricos ''O Velho'' (também do Toni Venturi), ''O Desterro'' (de Eduardo Paredes) e ''Vítima da Vitória'' (da curitibana Berenice Mendes). Com este último ganhei o prêmio de melhor trilha sonora no Festival de Brasília. Além deles, compus também para o filme ''Ruído de Passos'', de Denise Gonçalves, baseado num conto da Clarice Lispector.
Folha - Como está sua agenda de shows?
Antes de entrar no estúdio, em janeiro, fiz vários shows. Com o fim das gravações, me apresentei em vários lugares. Já fui seis vezes em Goiânia, além de ter tocado em Natal, Fortaleza e Recife. Espero me apresentar brevemente em Londrina. Eu e um de meus parceiros, Caê Martinuci, que é daí, tentamos fazer um show em Londrina três vezes mas não deu certo. Vamos ver agora. Para janeiro, a gravadora Trama está negociando uma turnê na Europa em que eu irei junto com a Nação Zumbi e com o Totonho.
Folha - O disco vai ser lançado no exterior?
Acredito que sim. Aliás, antes de fechar contrato com a Trama, eu estava em negocicação com três selos europeus para lançá-lo lá fora. Já tinha inclusive um projeto de capa para um selo italiano.
Folha - Você consegue identificar seu público no Brasil? Quem vai a seus shows?
É um público misturado. Faço show em lugares diferentes. Já toquei em clubs, teatros e casas de rock. Mas sinto que a maioria da platéia é mais ligada em música popular brasileira do que em música eletrônica.
Folha - Você não teme que o drum'n'bass saia de moda?
O que eu faço são canções. Se elas forem boas, sobreviverão aos arranjos. Acho que o drum'n'bass tem uma grande sobrevida, porque está se transformando ao se misturar com outros ritmos.


