A retomada no caminho certo
Francelino França
De Londrina
Uma avaliação realizada pelo Ministério da Cultura sobre a cinematografia brasileira em 1999 revela que o ano foi favorável para o cinema nacional, mesmo com o abalo econômico ocorrido nos primeiros meses do ano passado que nebulou diversos projetos na área. Filmes Made In Brazil conquistaram platéias estrangeiras, além de prêmios e reconhecimento internacionais.
Segundo pesquisa encomenda pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, houve um aumento de lançamentos nacionais em 1999 31 contra 24, em 98 e o crescimento de público. A pesquisa revelou que em 99 os filmes brasileiros tiveram 6 milhões de espectadores (em 98 foram 3,6 milhões), e a bilheteria quase alcançou a casa dos R$ 20 milhões.
Já o número total de espectadores que frequentaram os cinemas deve girar em torno de 70 milhões, o mesmo que em 98. A pesquisa abordou somente os filmes lançados no circuito comercial no País. Em comparação a 1992, quando somente 3 filmes brasileiros foram lançados no mercado nacional, os dados da retomada devem ser festejados.
O balanço feito pelo Ministério da Cultura foi transformado em catálogo, relacionando todos os filmes nacionais, avaliando a produção cinematográfia brasileira nos últimos 5 anos, dentro da chamada retomada do cinema nacional. Um dos pontos a ressaltar é a diversidade de temática entre os 108 filmes lançados nesse período, revelando uma rica multiplicidade étnica e cultural.
O panorama da cinematografia recente brasileira desvenda nossa sociedade eminentemente pluralista e cheia de diversidades, e registra nossas identidades culturais. A recepção de muitos filmes nacionais pelo público brasileiro desmonstra que a percepção da nossa realidade não se limita a setores da elite. Um exemplo disso, foi o documentário de Marcelo Masagão Nós que Aqui Estamos Por Vós Esperamos. Outro aspecto a ressaltar é o padrão de qualidade, com inegável aprimoramento técnico, que tomou o cinema brasileiro o mais competitivo da década.
O Secretário Nacional do Audiovisual do Ministério da Cultura, José Álvaro Moisés, no catálogo Cinema Brasileiro lembra a importância do programa Mais Cinema 1999-2000, lançado recentemente pelo Minc, em parceria com o BNDES, Sebrae e Banco do Brasil, que abre uma linha de crédito de R$ 80 milhões para apoiar a produção, a distribuição, a exibição e a infra-estrutura da indústria cinematográfica, confirmando-se a possibilidade de serem criados mais de 12 mil empregos em dois anos.
Para o cineasta Nelson Pereira dos Santos, no entanto, o cinema nacional ainda esbarra na falta de estrutura de distribuição (número de cópias) e de exibição (salas). Apareceram filmes muito bons, mas a gente vê que ainda não foram resolvidos os problemas de distribuição e exibição, constata o veterano. Um Copo de Cólera, de Aluízio Abranches, por exemplo, teve apenas sete cópias. Ou seja, só poderia estar em cartaz ao mesmo tempo em sete salas, das 1.400 salas de cinema no Brasil.
O problema da distribuição não é exclusividade da cinematografia brasileira. Na Itália, que viveu também um boom de produção audiovisual semelhante ao brasileiro, os realizadores também lutam para sobreviver ao predomínio da produção americana que oligopoliza o mercado mundial.A produção cinematográfica brasileira aumentou em 1999 com filmes que conquistaram platéias também no exterior
ReproduçãoO Quatrilho, de Fábio Barreto, candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, também reaqueceu as bilheterias brasileiras. A história dos imigrantes italianos no Sul do Brasil conquistou elogios de Steven Spilberg à atuação Glória Pires.ReproduçãoCarlota Joaquina, Princesa do Brazil, de Carla Camurati, filme que deflagrou a chamada retomada do cinema nacional. A diretora fez uma peregrinação por todo o País disputando com filmes americanos salas para exibição. Foi um sucesso de público em 1995.ReproduçãoO Judeu, de Jom Tob Azulay, teve suas filmagens iniciadas em 1989 e interrompidas por falta de verbas, quando 80% do filme havia sido rodado. Os dois atores principais do filme, Felipe Pinheiro e Dina Sfat, morreram antes do retorno das filmagens. Lançado em 1996, O Judeu retrata a história do autor teatral Antônio José da Silva.ReproduçãoGuerra de Canudos, de Sergio Rezende, uma das maiores produções brasileiras da década, foi lançado em 1997. A história da resistência de Antônio Conselheiro no sertão nordestino teve imagens apoteóticas, a participação de milhares de figurantes e grandes atuações de Marieta Severo e José WilkerReproduçãoPequeno Dicionário Amoroso, de Sandra Werneck, ganhou a simpatia imediata de crítica e público. O filme acompanha o itinerário sentimental de um casal em forma de dicionário. Tecnicamente impecável, mas acima de tudo, uma lição apaixonante de cinemaO Primeiro Dia, de Walter Salles e Daniela Thomas, lançado nos últimos dias de 1999, é a versão brasileira da coleção 2.000, visto por..., que integra 10 jovens diretores de diferentes países. Mais uma vez a dobradinha na direção resultou numa pérola cinematográfica brasileiraReproduçãoCentral do Brasil, filme que levou Fernanda Montenegro a concorrer ao Oscar de Melhor Atriz, empolgou platéias do mundo inteiro e é, sem dúvida, a produção que obteve mais prêmios em toda história do cinema nacional com seu enredo sensível sobre solidariedade em todas as suas nuances





