A ressaca, ou quase um bom filme
O título ''Se Beber Não Case'', dado pela distribuidora brasileira, pode ser qualquer coisa, menos sutil e atraente. O original, The Hangover (A Ressaca), é muito mais sugestivo. Quem for vai saber por quê. A comédia que entra hoje nas salas brasileiras, Londrina incluída (confira a programação de cinema na página 2) não é burra, é parcialmente inteligente e tem uma estrutura até interessante. Não chega a ser um bom filme, mas se distancia da pasmaceira escatológica e politicamente incorreta que o espectador se habitou nos últimos tempos.
O diretor Todd Philips, que há alguns anos fez um ''Starsky e Hutch'' com surpreendente desenvoltura, ainda deve amadurecer. É possível esperar que seu próximo filme convença plenamente. A melhor e maior novidade desta ''Ressaca'' é que seus protagonistas não são os típicos adolescentes, mas uma turma de respeitáveis trintões: um deles prestes a casar, seus dois melhores amigos (um professor e um dentista), e o futuro cunhado, alguém com inquestionáveis problemas psíquicos. Eles vão a Las Vegas para a despedida de solteiro do noivo.
Uma noite muito louca, escamoteada por uma elipse (uma das boas coisas da narrativa), antecede o amanhecer que mais parece o dia seguinte ao final dos tempos. Sintetizando: no quarto do hotel falta o noivo, mas estão lá um tigre, uma galinha, um bebê, uma mulher desconhecida em meias de renda. E ao dentista falta um dente.
Este é praticamente o enunciado. A partir daí, enquanto os envolvidos no imbróglio tentam insanamente reconstituir os fatos, há uma sucessão de situações disparatadas que parodiam desde o thriller até o western, passando por outros gêneros como a comédia romântica. O roteiro, apesar de bem dotado de filigranas e aparentar solidez, deixa escapar várias oportunidades para ampliar o espectro do absurdo que afinal é a razão de ser deste argumento.
É possível dar algumas boas risadas, como no momento em que os envolvidos no caos acordam depois da noite de farra, digno de um filme apocalíptico de ficção científica. Mas há o que deplorar, como a aparição especial de ex-campeão Mike Tyson: não só não é engraçada como resulta pateticamente injustificável. (C.E.L.J.)





