O rap nativo ganha status nas grandes cidades brasileiras. Demonstrou o grande potencial comercial do gênero. Só o maior expoente do rap nacional – Racionais MC’s – com o CD ‘‘Sobrevivendo no Inferno’’, superou a marca de um milhão de cópias vendidas. O Doctor MCs assinou contrato com a BMG, multinacional do disco, com produção caprichada do CD ‘‘Mallokeragem Zona Leste’’. A cultura de rua – o hip hop – tem como caixa sonora o rap, que amplificou as vozes dos excluídos das cidades inchadas.
Na periferia de Londrina, o hip hop vive de ondas. Para dar a letra (contar a história), as agulhadas nas injustiças sociais são provocativas. Os rappers criam rimas inspiradas em experiências próprias e nas dos amigos. O maior investimento dos grupos londrinenses será no próximo dia 26 de novembro, no projeto do Rap Contra a Fome, na terceira edição.
Eles vêm alertar para a realidade das comunidades periféricas que convivem com o preconceito social e racial, violência, tráfico e uso de drogas, abuso de autoridades, só para listar alguns problemas. ‘‘Essa é a vida real’’, diz o canto-falado. A poesia dura pode falar mal do gambé (policial quando abusa do poder) e de política, como também da falta de escolas e creches.
Nos guetos periféricos de Londrina, surgem nomes como ‘‘Sociedade Negra’’, ‘‘Estilo de Rua’’, ‘‘Mensageiros de Rua’’, ‘‘Estilo Negro’’, ‘‘Consciência de Rua’’, ‘‘Consciência e Humildade’’, ‘‘S.O.S. Atitude’’, ‘‘Realidade Street’’, ‘‘Manos do Rap’’, ‘‘Arquivo X’’, ‘‘Anjos Rebeldes’’, ‘‘Irmãos do Gueto’’, ‘‘O.Z.P.’’, ‘‘Arsenal de Idéias’’, entre tantos outros. Há menos de uma semana, o G.A.F., com sete anos de estrada, sucumbiu às brigas internas.
A Folha 2 conversou com alguns dos grupos de Londrina, conhecendo in loco como vivem e o que pensam os rappers. A filosofia mora na periferia. O conceito e a prática da cidadania é cada vez mais presente. Eles conseguem vislumbrar o potencial humano da população periférica. A auto-estima da rapaziada sempre está muito elevada. Fundamental para quem busca outro paradigma na vida. O rappers estão tentando uma visibilidade maior. Querem espaço para ensaiar. Às vezes, não conseguem se reunir na esquina do conjunto onde residem. A polícia passa e dá uma geral, exige mão na parede.
Na batida eletrônica, eles defendem que rap não é modismo, é a voz da periferia. Não querem estar na fita (estar em destaque). O que importa são as idéias dos caras caminhando pelo lado certo. Outra reivindicação: querem ouvir mais rap nas rádios, sem preconceito. Mesmo os raps prestigiados pela mídia nacional, não têm espaço nas rádios em Londrina.


Mario CesarFábio da Silva com a mulher Meirian e a filha Jenifer Luana, de apenas 4 anos, formam o Estilo Negro. Para eles, ‘‘morte, droga e periferia não viram cartão- postal’’

Estilo Negro faz
música em família
No assentamento Jardim dos Campos (Zona Norte), o Estilo Negro dá o seu recado. ‘‘O rap não passa lápis colorido nas coisas que são feias. Morte, droga e periferia não viram cartão-postal’’, alfineta Fábio da Silva. Meirian Santos, Antônio dos Santos Jr. e Jenifer Luana (de apenas 4 anos), formam a trupe do Estilo Negro. Conquistaram platéia com um repertório de 18 músicas, na comunidade e em vários distritos de Londrina. Para imprimir suas características, o Estilo Negro quer produzir batida própria. Na mensagem, querem recuperar o valor individual de cada um.

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