A religiosidade do brasileiro em três documentários
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terça-feira, 29 de junho de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 30 (AE) - Talvez seja exagero dizer que os cineastas brasileiros estejam de mãos postas, esperando por um sinal dos céus ou por uma intervenção divina. Mas seria excesso de confiança no acaso atribuir à simples coincidência o fato de três documentários de longa-metragem sobre a relação do brasileiro com a esfera do divino estarem prontos e à espera de lançamento: "Milagre em Juazeiro", de Wolney Oliveira, "Fé", de Ricardo Dias, e "Santo Forte", de Eduardo Coutinho. Os três usam técnicas, tons e chegam a conclusões diferentes. E nem poderia ser diferente.
São pontos de vista distintos e buscam entender um universo literalmente inesgotável, que é o da relação do homem com aquilo que o transcende. Mesmo quando limitam seu campo de pesquisa, lidam com sentimentos, digamos assim, oceânicos, difíceis de apreender, impalpáveis. O fato de surgirem ao mesmo tempo talvez não seja obra do acaso. "Na verdade, comecei a pensar nesse trabalho seis anos atrás", diz Wolney, que apresentou seu filme na abertura do recém-encerrado Festival de Fortaleza. O fato de não tê-lo terminado antes se deveu aos crônicos problemas de produção existentes no Brasil. Mesmo assim
o cineasta admite que sentiu uma motivação externa para ingressar no terreno religioso: "O avanço das seitas evangélicas tem recolocado a questão religiosa como prioritária no Brasil", constata.
Eduardo Coutinho (autor do antológico Cabra Marcado para Morrer) limitou pesquisa e filmagem a poucos personagens e a um só local, a Favela Vila Parque da Cidade, zona sul do Rio. O tema surgiu porque o cineasta notou que em todas as conversas com as pessoas aparecia, de uma maneirra ou de outra, algum tipo de referência ao pensamento místico. Assim, o assunto se impôs ao artista. Já Ricardo Dias entendeu que chegara o momento de rever a posição do cinema em relação às manifestações religiosas. Nos filmes dos anos 60, a religião era comumente vista como etapa da alienação popular, a ser vencida, portanto. Em entrevista, Dias afirmou que decidira fazer um filme deliberamente a favor das crenças: "A religião não é o ópio do povo", acredita ele. Dessa posição prévia nasceu o longa-metragem "Fé".
Quem observa de fora o surgimento desses filmes concorda que não se deve ao acaso sua presença simultânea na cena cinematográfica brasileira. O documentarista Vladimir Carvalho (de O País de São Saruê e Conterrâneos Velhos de Guerra) prepara novo longa-metragem, que passa ao largo de preocupações mais, digamos, transcendentais: "Barra 68" falará da invasão da Universidade de Brasília pela polícia na época da repressão. Mas Vladimir tem sua tese sobre a motivação de seus colegas - segundo ele, a concentração desse tipo de filme se deve ao avanço do fenômeno religioso no Brasil e, sobretudo, sua participação crescente na mídia: "Os bispos e pastores passaram a ser presença constante e cada vez mais notada nas emissoras de televisão; isso, de alguma forma, está na atmosfera social e deve ter sensibilizado os cineastas".
É uma hipótese interessante, mas que deve ser agregada a outras explicações. Uma delas, por exemplo, é que a laicização da sociedade de fato nunca se completou. Nem com a separação entre Estado e Igreja e nem agora, com o mundo aparentemente mergulhado na fria lógica mercantil, que excluiria, teoricamente
qualquer diálogo com a ordem divina. O que de fato acontece é mais ou menos o contrário: as pessoas continuam indo à missa, aos terreiros de candomblé, às mesas brancas do espiritismo, aos passes e bênçãos, aos exorcismos públicos de algumas seitas evangélicas. O brasileiro é um povo religioso por natureza. E de vocação sincrética. O brasileiro comum confessa-se e comunga. Mas pode sair da igreja direto para o seu terreiro favorito. Não dispensa uma fezinha ou um amuleto contra o mau-olhado.
Riobaldo, narrador de "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa, usa uma curiosa expressão para explicar a heterodoxia em matéria de fé: "Qualquer sombrinha me refresca". Quer dizer: quem está no sufoco apega-se a qualquer santo. E sufoco é a condição habitual do povo brasileiro. Convergências - Há um ponto de convergência entre filmes tão diferentes quanto "Fé", "Santo Forte" e "Milagre em Juazeiro". Nos três, os grandes protagonistas são pessoas das classes populares, essa gente que ficou à margem do Plano Real, da mesma forma como passou por todas intervenções macro ou microeconômicas sem sentir benefícios palpáveis ou duradouros. Vão mal em qualquer situação, do milagre econômico da era militar à globalização. A gente simples, a turma do andar de baixo, é protagonista de "Milagre em Juazeiro". Nem poderia ser diferente. A cidade, encravada num dos lugares mais pobres do País, vive do misticismo associado à figura do padre Cícero Romão Batista.
Wolney usa cenas documentais das romarias a Juazeiro, mescladas a uma parte de ficção, que reconstitui a trajetória de padre Cícero. Este exercia o ministério em Crato. Mudou-se para Juazeiro e provavelmente continuaria sendo um obscuro pároco de aldeia não fosse o suposto milagre que o transformou numa espécie de santo informal do Nordeste. Segundo a lenda, uma hóstia se teria transformado em sangue na boca da beata que recebia a comunhão. Falou-se que o sangue era de Cristo e a notícia espalhou-se pelos ermos pobres. A Igreja contestou e padre Cícero chegou a sofrer processo eclesiástico. Mas a fama ficou e Juazeiro transformou-se no local de peregrinação que é até hoje. Todos os anos acorrem à cidade milhares de romeiros, atrás da cura para as doenças, melhoria de situação de vida ou simplesmente conforto espiritual. À sombra da crença proliferou uma verdadeira indústria da fé, com a venda de artefatos religiosos variados.
O próprio Cícero já antevia esse potencial econômico da devoção religiosa. Era homem do espírito, mas com os dois pés bem fincados no mundo secular. Em vida, chegou a ter grande influência política, tendo sido vice-governador do Ceará e prefeito de Juazeiro. Morto, tornou-se ícone popular. Há quem o julgue santo; outros acham que, pelo menos, foi benfeitor popular. Existem os que o consideram uma espécie de coronel de batinas. "Milagre em Juazeiro" procura contemplar as facetas ambíguas do fenômeno padre Cícero e deixar a discussão em aberto. Para que, democraticamente, cada qual tire sua conclusão.
O mesmo tom respeitoso é notado em "Santo Forte". Ao contrário de "Milagre em Juazeiro", não há nele nenhuma parte ficcional. É um documentário "puro". Eduardo Coutinho moveu-se com sua equipe para a Favela Vila Parque da Cidade e durante duas semanas ouviu depoimentos de 15 pessoas, reduzidos a dez na montagem. É o primeiro longa-metragem de Coutinho desde "O Fio da Memória", de 1991, que esmiúça a condição dos negros na socidade brasileira e tinha sido projetado como parte das comemorações do centenário da Abolição. Coutinho diz que "Santo Forte" pretende ser uma espécie de "teologia da palavra, mostrando como as pessoas vivem sua religião e como vêem as dos outros".
São depoimentos às vezes impressionantes, como o da mulher paupérrima e muito articulada, que acredita piamente ter sido rainha do Egito em vidas passadas. Diz que ouve e adora Beethoven. "Como eu posso ter esse tipo de gosto, pobre como sou?" Os depoimentos valem por si. A mulher acha que bom gosto musical é algo privativo das classes privilegidas economicamente. Portanto, sua preferência pessoal pela música clássica só pode ter explicação mística. Incorpora, sem querer, o ponto de vista das elites. Mas Coutinho não explica nada, nem coloca nenhuma narração em off para dar a palavra final a algum especialista. "Santo Forte" é um filme de pesquisa deliberadamente concentrada. Filmado em um único local, com número reduzido de depoimentos, câmera muitas vezes fixa e fechada sobre a fisionomia de quem está falando. É uma opção. Para Coutinho, reduzir o campo significa aprofundar. Por isso concentrou seu foco e dele extraiu coisas fantásticas, como a dançarina de streap-tease que a cada noite pede a proteção de sua pomba-gira, o motorista de gente rica que garante ter a proteção de um preto velho, etc.
Imparcialidade - A mesma imparcialidade de análise está presente em "Fé", de Ricardo Dias. Só que, desta vez, num campo de observação mais aberto. Se Coutinho permaneceu numa única favela carioca, Dias visitou vários pontos do País. Foi a Juazeiro e, como Wolney, observou a mística relação das pessoas com a figura do padre Cícero Romão. Registrou o Círio de Nazaré, em Belém, a Festa de Iemanjá, na Praia Grande, em São Paulo; passou pelo Vale do Amanhecer, perto de Brasília, entrevistou gente ligada às igrejas evangélicas, viajou para Uberaba para registrar manifestações de espiritismo. Um verdadeiro road movie do fervor nacional, mas sem nenhuma tentativa de tornar-se um inventário completo.
Como Wolney e Coutinho, Dias não julga e pouco comenta em seu filme. Praticamente a única voz em off é a de um curioso dublê de psiquiatra e seminarista, Adalberto Barreto, de Fortaleza. Ele e uma mãe-de-santo atendem juntos, no mesmo consultório, e encaminham "pacientes" um ao outro. Um caso de sincretismo talvez sem igual no mundo.


