De repente um papo caiu na rede da internet, no grupo de correio eletrônico do projeto linha imaginária ([email protected]), para colocar em discussão o tema da realidade e a imagem da realidade. Ou seja, uma coisa que é, ou pode ser, e outra coisa que parece ser, mas não é nada do que parece que é. Assim nos perguntamos se uma pintura de um pássaro voando na paisagem é um pássaro voando na paisagem ou uma pintura? Ela pode ser os dois ao mesmo tempo e correr o risco de ser nenhum? Pensando em termos de criação: há uma diferença entre o eu que cria e o outro que consome? É possível proteger a criação da contaminação com a vida, como se tivéssemos um papel social a cumprir, por um lado, e do outro, dar conta de todos os nossos desejos, afetos e subjetividades?
Parece que há, entre o eu e o outro, algo que forçosamente nos separasse e nos colocasse cada um de um lado, dentro e fora, como que se nos fosse impossível transpor o ‘‘mito da caverna de Platão’’, ou melhor, como se continuássemos a acreditar em uma estória de uma estória que nos conta de uma descrença (um dia um habitante da caverna sai e volta para contar que tudo o que se acreditava até então, não era verdade).
Platão adorava pregar suas peças nos poetas e artistas, tanto que os queria longe de sua República e, em outra ocasião, colocou um espelho na frente de um pintor para demonstrar que ele era muito melhor em imitar a realidade do que ele, pintor. Queria nos dizer que a relação da arte com a imagem só é possível por representação da realidade.
Esses conceitos platônicos só serão detonados a partir do século 19 com o filósofo alemão Friedrich Nietzsche que criou uma filosofia da potência, do desejo, da vontade, do agora. E depois com a fenomenologia deste século, com Merleau-Ponty e também Martin Heidegger é que esta questão vem a se resolver, pois imaginar a existência de um dentro e um fora é imaginar que existam dois momentos no mesmo ser; um que antecede ao fazer das coisas e outro que só o é depois de feito. Como se existisse, de fato, um momento que é a realidade, e outro, que é a imagem desta realidade.
Como, então, resolver essa esquizofrenia? Se eu só existo depois que eu penso, então, ou eu não sou matéria, ou eu não existo, certo? O que em mim pensa? Em arte, cada vez mais tais temas são abordados e, aliás, parece haver certa sintonia, certa sincronicidade que ajudam na abordagem de questões como essas. Uma delas se dá com a exposição da artista curitibana, que está expondo seus trabalhos na Galeria Casa da Imagem de Curitiba até o dia 27 de janeiro. O nome da mostra não poderia ser mais sugestivo: ‘‘Dentro?’’. E, pela foto, no convite (veja reprodução no alto da coluna), dá para entender o significado do nome. É impossível precisar de que lado fica o tal ‘‘dentro’’.
Mais que uma resposta à dúvida do que é e do que parece ser, tais relações só existem se partirmos da primeira poética de trânsito livre possível a todos nós, que é a respiração. Ou a suspensão dela, quando uma obra de arte nos rouba, por um momento, nossa capacidade de diferenciação entre o dentro e o fora, o real e a imagem do real, a representação da coisa e a coisa em si, transformando tudo em estado de entropia.
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