A relação amorosa é tema do monólogo "O Jantar" que estréia amanhã
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 1999
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 18 (AE) - Quem viu jamais se esquece de peças como "O Cobrador", adaptação para a linguagem de quadrinhos do conto homônimo de Rubem Fonseca, e "Os Brutos também Amam", adaptação teatral do romance Shane, que inspirou o clássico faroeste de George Stevens.
Além de ousados e bem-sucedidos, esses dois espetáculos teatrais paulistanos tinham em comum o texto de Luiz Cabral e a direção de Beth Lopes. A dobradinha repete-se agora no monólogo "O Jantar", interpretado por Luiz Carlos Rossi, que estréia amanhã (19) na sala Paulo Emílio do Centro Cultural São Paulo. E não é só.
Como em time que está ganhando não se mexe, iluminação e trilha sonora estarão a cargo de Wagner Pinto e Marcelo Pelegrinni. A dupla integrou a equipe de criação da diretora em todos os seus trabalhos, incluindo "A Margem da Vida", a mais recente direção de Beth Lopes com Regina Braga no elenco.
No entanto, há uma diferença com relação aos espetáculos anteriores. Esta será a primeira vez que Luiz Cabral leva ao palco um texto inteiramente de sua autoria. Até hoje seus textos teatrais foram adaptações de outras obras ou criados em parceria, como "No Olho da Rua", escrito a quatro mãos com Ricardo Soares. "Desabafo estonteante" - "Há três anos planejo montar esse monólogo, o desabafo estonteante de um homem", diz Beth Lopes. A peça tem duração de uma hora, o tempo exato de o personagem preparar um jantar. Na cozinha de sua casa, após temperar um assado, um homem conversa com a panela de pressão. E a escolha desse "interlocutor" não é gratuita.
Vivendo uma profunda crise conjugal e existencial, ele revolve ressentimentos acumulados em anos de casamento. O desabafo vai subindo de pressão a ponto de provocar na platéia o temor por uma explosão que pode ocorrer caso nada contribua para o "resfriamento" do personagem. O fim... Bem, o fim é surpresa.
Obviamente, a relação amorosa ou o fracasso dela é o tema central da peça. "Muito já se falou sobre isso, mas o tema é tão complexo que quanto mais olhares receber, melhor", afirma Beth. Polêmica entre casais - Em "O Jantar", de início, chama a atenção certa inversão de papéis. É o homem que está às voltas com as panelas e se queixa, entre outras coisas, de sua indiferença. "Ele divide as tarefas de casa e, nesse sentido, é um texto bem contemporâneo", comenta a diretora.
Mas que ninguém imagine um marido ideal. "Ele é cheio de contradições e seu comportamento dá margem para que seja visto como um canalha, um machista, mas também como um homem sensível", avisa Beth. "Trata-se de um personagem muito rico e acho que a peça pode provocar uma certa polêmica entre os casais da platéia", diz Beth.
Ou seja, ele pode despertar a mesma relação de amor e ódio que parece existir entre ele e a mulher, que, por sinal, o público só conhece por meio de sua versão.
Na concepção da diretora, o personagem é um sujeito rebelde, arredio aos valores da classe média. "Ele não é um homem ambicioso e é cobrado por isso; em resposta, ironiza os valores da classe média, denuncia a hipocrisia desses valores com observação aguçada".
No palco, o público poderá sentir o cheiro da comida preparada pelo ator, escolhido pela diretora desde a primeira leitura do texto. "Rossi é um ator excepcional, perfeito para entender minha proposta de trabalho centrada nas ações físicas e nas pulsões do personagem", diz. Sentimentos reprimidos - Rossi ressalta a solidão como a principal marca desse trabalho. "Estarei sozinho no palco, interpretando um personagem que também sofre de profunda solidão", diz. Solidão em família, entenda-se, uma vez que o mestre-cuca desse jantar, além de casado, tem filhos.
O ator vê o personagem como alguém que abafou seus sentimentos. "Na minha visão, sua mulher era muito inteligente, culta, exuberante e o suplantou em tudo." Na verdade, o personagem se deixou suplantar. "Ele não falou quando devia e por isso chegou ao ponto da explosão", observa o ator.
Segundo a diretora, a peça não joga a culpa do fracasso da relação nas personalidades dos envolvidos. "No caso deles, e acho que em muitos casos, o fracasso vem das expectativas que um tinha em relação ao outro", diz. Mas a peça está longe de fornecer fórmulas para um bom casamento. "Não há respostas: é só mais um olhar", diz Beth.


