A refeição é sagrada
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sexta-feira, 10 de abril de 2020
Fábio Luporini/ Especial para Folha 2 
Risoto, nhoque, macarrão. Torta disso, torta daquilo. São muitas as receitas que eu e você, certamente, estamos testando, preparando e degustando durante essa pandemia do novo coronavírus que nos obrigou a estar mais em casa. Acima de tudo, essa dificuldade está nos ensinando o valor da convivência em volta da mesa, algo de que estávamos nos esquecendo. Há muito tempo que pais e filhos não almoçavam juntos ou, então, famílias que não se reuniam para apreciar uma refeição. O ser humano é o único animal que confere significado à refeição.
Tal qual uma animal, precisamos nos alimentar para sobreviver. Faz parte da biologia. Entretanto, somos racionais – os únicos, aliás, conforme o filósofo Aristóteles – e temos a capacidade de fazer escolhas de acordo com tradições, origens, crenças, cultura, entre outros aspectos. Dessa forma, o ato de se alimentar ganha uma função social. E diferente nas diferentes sociedades. Diversa, a diversidade de significados. Pode ser educativa, pode ser que agregue. Pode ser que transforme, pode ser que seja permeada de ritos e espiritualidade. O catolicismo, por exemplo, reúne o centro de sua fé em torno de uma mesa, a da partilha, a da Eucaristia.

Alimentar-se é mais que uma ciência biológica. E passa longe de ser uma ciência exata. Ao contrário, é recheada de subjetividade. É indispensável ao homem não apenas por sua característica essencial à vida, mas, sobretudo, pelo significado e pelo convívio que confere à atividade humana. Na Idade Média, por exemplo, os banquetes tomaram forma com o tempo e passaram a ter a função de estabelecer alianças com aliados, tomar decisões, firmar acordos e até receber inimigos.
A alimentação, inclusive, denotava, como o faz até hoje, uma diferenciação social, uma marca entre quem tinha posses e quem não tinha. Desde os utensílios utilizados até o tipo de alimento servido. Assim foi com os escravos africanos no Brasil colonial. O leite, item valioso, era reservado aos senhores de engenho, que descartavam os miúdos do porco, o que permitiu aos moradores da senzala a criarem uma iguaria brasileira: a feijoada. Que, aliás, foi ressignificada e hoje percorre o mundo como uma propaganda do país.
E você? Qual é o significado que dá à alimentação? Há aqueles que engolem a comida com a pressa do dia a dia. Outros, que preferem dar atenção aos equipamentos eletrônicos em vez de apreciar os meandros da gastronomia. Não perca mais tempo, a partir de hoje: saboreie as refeições, porque, independentemente de qual sociedade ou religião a gente pertença, elas são sagradas!


