A redescoberta das águas de Londrina
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quarta-feira, 04 de junho de 2003
Especial para Folha 
No início da colonização, os rios significavam meio de transporte e fonte de alimentos; desprezados e poluídos ao longo dos anos, ressurgem agora como eixos de uma proposta de desenvolvimento em equilíbrio com a natureza
Manhã chuvosa de uma quinta-feira. Pelas vidraças do gabinete do prefeito Nedson Micheleti, avista-se - com dificuldade devido ao mau tempo - uma parte do Lago Igapó. Um dos mais belos cenários de Londrina, o lago é na verdade uma represa no Rio Cambezinho, que cruza boa parte da área urbana do município. Mas há outros rios, além de riachos e córregos menos conhecidos. Ao longo dos anos, em nome do progresso, todos sofreram com a poluição.
Até mesmo o histórico Rio Tibagi - que serviu de meio de transporte e fonte de alimento a muitos colonizadores - acabou sendo desprezado. Alguns moradores não sabem sequer que aproximadamente 100 quilômetros do Tibagi cortam as terras de Londrina.
Uma proposta apresentada pelo prefeito Nedson Micheleti, embasada no trabalho do Conselho Municipal do Meio Ambiente, promete trazer os rios londrinenses a uma posição de destaque. As nascentes já começaram a passar por um trabalho de recuperação, o Tibagi vai ganhar um Parque Municipal, os lagos Igapó serão desassoreados e os fundos de vales estão sendo urbanizados. Além disso, a região norte vai ver realizado o sonho de contar com um lago e uma área de lazer.
As águas de Londrina estão em alta: até mesmo o zoneamento urbano daqui para a frente terá que levá-las em consideração. Nesta entrevista, Micheleti fala dessa proposta e do que está sendo feito pela qualidade de vida em Londrina.
Folha - Antes das questões pontuais, o que está sendo feito visando a qualidade de vida hoje e no futuro?
Nedson - A cidade tem a característica de despertar facilmente para as questões ligadas à preservação do meio ambiente, as pessoas gostam e querem qualidade ambiental. Ao mesmo tempo existe certa deficiência nesta parte cultural com relação ao cuidado ambiental. O quadro exige dois grandes projetos. O primeiro, no campo institucional, é o Plano Diretor de Londrina revisto, incluindo-se nele o Zoneamento Ambiental e também o Código Ambiental do Município.
Folha- A cidade não tem um Código Ambiental?
Nedson - Infelizmente ainda não. O que temos é uma série de leis dispersas que precisam ser condensadas ou adaptadas para formarem um código qualificado, moderno. Nem o zoneamento urbano, nem o Plano Diretor foram constituídos partindo desta base. É isso que estamos propondo: vamos pensar na ocupação do solo levando em conta o meio ambiente. Vamos ter como ponto de partida a água, os nossos rios e as nossas bacias hidrográficas. A partir daí, desenvolveremos o processo de cuidado ambiental e uma cultura de proteção ao ambiente.
Folha - Isso vai interferir na expansão urbana?
Nedson- Vamos inverter a lógica da construção do Plano Diretor. Quando formos fazer um projeto de expansão urbana, já estará determinado o que pode e o que não pode do ponto de vista ambiental, onde tem nascentes ou mananciais etc. Já temos problemas hoje com relação ao manancial do Cafezal e em breve poderíamos ter com o Jacutinga. Precisamos agir rapidamente para que os mananciais sejam protegidos. Tudo deverá ser previsto, tendo como referência os rios que cortam Londrina, as nascentes e os fundos de vales. Assim conseguiremos um desenvolvimento equilibrado, sem prejuízo para as futuras gerações.
Folha- O senhor falou em dois grandes projetos. Qual é o outro?
Nedson- O segundo projeto é educativo. O objetivo é que as pessoas se vinculem aos fundos de vales, se referenciem pelos rios. Vamos fazer um trabalho de educação ambiental através do que chamamos de geo-referenciamento por bacia, ou seja: cada pessoa vai saber na casa em que ela está, no local onde mora ou trabalha, o que vai acontecer se ela jogar papel na rua. Em que rio aquele papel vai parar? Se jogar uma sujeira na boca-de-lobo, vai saber onde aquela sujeita vai parar.
Folha- A idéia é que as pessoas saibam qual é o impacto das ações individuais no ambiente comum?
Nedson - Muitas pessoas acham que só existe falta de cuidados com o fundo de vale por parte de quem está no entorno. Com esse mapeamento geo-referenciado todo mundo vai ter consciência do que pode fazer. Hoje, uma empresa se referencia pelo bairro, não pelo córrego ou pela bacia hidrográfica que pode estar poluindo ou protegendo. Vamos tomar o exemplo de uma escola: se desenvolvermos um trabalho com os alunos, mostrando que ela está vinculada a determinada bacia, a determinado fundo de vale, vamos dar orientação ambiental de forma prática.
Folha- A educação ambiental começaria com a conscientização dos estudantes...
Nedson- O importante é envolver todas pessoas. Com esse trabalho de educação - se proporcionarmos esta sinalização, este geo-referenciamento - todo mundo vai saber, o empresário vai saber, nós vamos saber o que pode e o que não pode ser feito. Haverá vinculação das pessoas com o rio, com a água. Isso muda a visão da comunidade.
Folha- O Rio Tibagi, que foi tão importante na colonização do município, não anda meio esquecido pelos londrinenses?
Nedson- Não temos hoje vinculação com os rios, inclusive rios urbanos, a não ser com pontos fortes como o Lago Igapó. Mesmo assim, algumas pessoas não sabem que se trata na verdade de uma represa, que o Igapó é um rio represado. O caso do Tibagi é um exemplo dessa falta de vinculação. Se perguntarmos para qualquer londrinense onde fica o Tibagi, ele provavelmente vai dizer que fica em Jataizinho ou em Primeiro de Maio, quase ninguém sabe que tem quase 100 quilômetros do Tibagi em nosso município. E nem fica tão longe da cidade: o rio está a 15 quilômetros daqui.
Folha- Além desses macroprojetos, a prefeitura não terá de desenvolver ações objetivas, algumas inclusive já cobradas pela população?
Nedson- Existem ações objetivas, como a urbanização dos fundos de vales, a arborização, limpeza, a varrição que ajuda a não assorear os rios, córregos, lagos; as ações preventivas, a fiscalização em obras porque a areia na rua pode ir para o rio, um loteamento que está sendo aberto pode jogar terra no ribeirão, enfim, tem muita coisa sendo feita. E há muita coisa para se fazer, como a criação de espaços de lazer, algo que ajuda a conseguir o envolvimento das pessoas no cuidado com o ambiente.
Folha- Vamos falar sobre as ações pontuais. O lago da zona norte, por exemplo, o que falta para que saia do papel?
Nedson- Este é um dos grandes projetos da cidade. Não dá para erguer uma barragem e encher o lago de água sem qualidade, ou não cuidar do entorno. Quando o Lago Igapó foi feito, não havia nada em volta. Mesmo assim, com o crescimento da cidade, ele se tornou um problema em várias oportunidades. Quantas vezes já teve de ser esvaziado? Então não dá para fazer um lago sem rigoroso controle ambiental.
Folha- Qual seria então o maior obstáculo?
Nedson- Há uma série de encaminhamentos ambientais que precisam ser feitos antes da construção da barragem. Vamos fazer um lindo lago, mas com todos os cuidados ambientais. Temos os recursos e esta é uma proposta que estou empenhado em realizar. Primeiro, porque o Rio Lindóia andou meio desprezado e com a construção do lago vai acontecer o mesmo que ocorreu com o Igapó: hoje muitas pessoas se preocupam em proteger o Cambezinho por causa do Igapó. Outro aspecto é que aquela região é um grande centro, a população terá mais qualidade de vida com uma área de lazer, a região ganhará mais beleza urbanística e será mais valorizada.
Folha- Já que estamos falando em lagos, como fica a situação do conjunto Igapó com o problema do assoreamento, que parece ter afetado também os lagos 3 e 4?
Nedson- Tínhamos um problema urgente para resolver no Igapó que era a situação da ponte entre os lagos 1 e 2. Decidimos aproveitar a oportunidade e remodelar o lago 2. Tudo foi feito com qualidade para o ambiente e qualidade de engenharia também. Ficou muito bonito e a população ganhou mais uma área de lazer. Estamos ampliando também o uso das áreas de lazer para o Igapó 3, incorporando o aterro do lago 3. Pegamos um espaço abandonado e demos a ele destinação cultural e esportiva. Já tivemos dois grandes eventos no local. Agora alugamos uma casa ao lado, que será uma subsede da Fundação de Esportes com a finalidade de dar ocupação permanente àquele espaço.
Folha- E a incômoda questão do desassoreamento?
Nedson- Não é incômoda, é apenas um processo que tinha de ser precedido por discussões técnicas e que também pretendemos iniciar em breve. Não se trata só de esvaziar ou não os lagos, ou de colocar aquele tipo de draga. Tudo isso faz parte da discussão, mas existem aspectos que algumas pessoas nem imaginam. Por exemplo: é preciso resolver a origem do assoreamento; é preciso cuidado para não agredir o ambiente com o serviço ou você acaba causando danos aos peixes, aos microorganismos, prejudicando a natureza; é preciso definir onde colocar os resíduos, fazer análise da terra para saber se não há metais pesados, poluição, e dar destinação adequada. Mas vamos fazer, iniciando logicamente pelo lago 4, da nascente para baixo, e depois da experiência neste local iremos descendo para os demais.
Folha - Isso significa investimento alto?
Nedson- Investimento alto e processo lento. Não existe outra maneira.
Folha- E o projeto de recuperação das nascentes, em que pé está?
Nedson- O projeto de recuperação das nascentes teve de ser redimensionado. Quando foi lançado, previa-se a recuperação de 50 nascentes com recursos da Sanepar, como medida compensatória. Mas esses recursos eram de R$ 50 mil e não se faria nada com R$ 1 mil por nascente. O acordo está sendo revisto com aval do Ministério Público. No entanto, algumas nascentes que exigiam prioridade já estão sendo recuperadas, como a do Cabrinha, na zona norte, e do Córrego do Barrero, na zona leste.
Folha- O que é exatamente o projeto Parque Municipal do Tibagi?
Nedson- Dentro daquela perspectiva de vinculação das pessoas com os rios, vamos criar uma área arborizada, com acesso ao Rio Tibagi em um espaço onde existe a chamada balneabilidade. Há lugares rasos perto da margem, há locais fundos em pontos mais avançados. Pode-se usar bóias e passear de barco. A população terá mais uma opção de lazer, um novo lugar para passar o domingo e levar as crianças para nadar ou pescar. Queremos realizar essa obra em curto espaço de tempo.


