A REDENÇÃO NA SIMPLICIDADE
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de novembro de 2001
Marcos Losnak<br>De Londrina - Especial para a Folha 2 
O escritor russo Liev Nikoláievitch Tolstói (1828 - 1910) mais conhecido como Leão ou León Tolstói foi um homem que elegeu a fé como um de seus maiores bens. Passou parte da vida procurando algum sentido na existência e lutando contra as ''tentações da carne''. Não encontrou nenhum sentido convincente, assim como não venceu a luta contra os desejos, mas acolheu a fé como salvação.
Mergulhando no cristianismo, Tolstói encontrou um abrigo seguro para os questionamentos do espírito. Ao mesmo tempo, diagnosticou uma série de contradições no procedimento cristão dirigido pela Igreja. Exercendo seu livre pensar, realizou uma leitura própria dos ensinamentos de Cristo e inseriu essas idéias na trama de suas novelas.
Por essa postura, Tolstói, em 1901, foi excomungado pela igreja ortodoxa russa. Nessa época escreveu novela ''Padre Sérgio'', em que abordava questões que atormentavam sua cabeça: o sentido de pureza frente à força dos prazeres. Uma história que de certo modo antecipava os últimos anos de vida do escritor.
''Padre Sérgio'' acaba de ser publicado pela editora Cosac & Naify, dentro da coleção ''Prosa do Mundo''. Com tradução realizada diretamente do russo, o volume ainda traz a carta que Tolstói escreveu aos sacerdotes que promoveram sua excomunhão. Nela, expõem sua visão pessoal do cristianismo em oposição à ótica oficial ortodoxa.
Para se ter uma idéia, Tolstói conclui seus argumentos com as seguintes palavras: ''Comecei a amar minha fé ortodoxa mais que minha tranquilidade, depois passei a amar o cristianismo mais que minha igreja, agora amo a verdade mais que tudo no mundo. E até aqui a verdade para mim coincide com o cristianismo, como o entendo. Professo esse cristianismo e, à medida que o professo, vivo tranquilo e feliz, e tranquilo e feliz vou-me aproximando da morte''.
Em ''Padre Sérgio'', o escritor narra a história de Stiepán Kassátski, um oficial do exército czarista que abandona seu futuro promissor para tornar-se um devoto de Deus. Desde a juventude Kassátski dedicou-se ao sucesso profissional e social. Para galgar maior projeção, fica noivo de uma moça de hierarquia social superior à sua. Quando está prestes a casar-se, descobre que a futura esposa havia sido amante do imperador.
Atordoado com o fato, decide radicalizar sua existência. Rompe o noivado, abandona a carreira militar, doa seus bens à irmã mais nova e se isola num seminário. Seu objetivo é atingir a redenção através dos ensinamentos religiosos. Após ordenar-se padre, adota o nome de Sérgio. Mas, depois de anos de dedicação, chega à conclusão de que ainda não conseguiu vencer os desejos da carne.
Atormentado pelos fantasmas dos desejos, decide tornar-se um eremita. Enclausura-se numa caverna, abrindo mão definitivamente do contato humano. Então, anos depois, o destino faz com que uma mulher entre em sua clausura para vencer uma aposta irresponsável. Para se manter casto e evitar as tentações da carne, padre Sérgio decepa um dos dedos da mão com o machado de cortar lenha.
Esse episódio contado por Tolstói é uma das partes mais intensas da narrativa. O leitor acompanha o suor do tormento seguido da chuva de tranquilidade experimentada pelo personagem. Ao vencer a tentação, ganha fama e vários milagres começam e ser atribuídos a ele. Sua caverna se transforma em ponto de peregrinação dos fiéis.
Quando tudo parece indicar que padre Sérgio finalmente alcançou seu objetivo, a completa redenção, centenas de duvidas invadem seu espírito. As coisas começam novamente a não ter sentido e a tranquilidade alcançada se apresenta vulnerável e instável. Nesse momento, ele sofre mais um tentação feminina e não lhe impõem nenhuma resistência. Diante da consciência de que seu espírito ainda não chegou à verdadeira compreensão religiosa, abandona a igreja e para a viver como andarilho a procura da tão procurada redenção.
Em ''Padre Sérgio'', Tolstói coloca em evidência a hipótese de que a verdadeira redenção não pode ser encontrada necessariamente no seio de uma instituição religiosa, mas na vida comum das pessoas que se esforçam em sobreviver com dignidade apesar das milhares de dificuldades. O santo não seria os milagreiros institucionalizados pela igreja, mas o homem simples que, apesar do sofrimento, elege o amor como conduta primordial.
Toda literatura de Tolstói seja ''Guerra e Paz'', ''Ana Karenina'', ''Ressurreição'', ''A Morte de Ivan Ilitch'' ou ''Sonata a Kreutzer'' está impregnada de idéias e ideais defendidas por ele, pensamentos políticos, religiosos e éticos. ''Padre Sérgio'' não foge a essa rega. Argumenta que a religião deve estar livre dos dogmas e limpa de misticismo para que o homem seja feliz na terra. Vale lembrar que Mahatma Gandhi levou as idéias de Tolstói para a articulação do princípio da não-violência.
''Padre Sérgio'' já recebeu duas adaptações para o cinema. A primeira foi realizada pelo russo Iacov Protazanov em 1917, um filme mudo realizado na véspera da Revolução Russa. A segunda foi feita pelos irmãos Taviani em 1990, com o título ''Il Sole Anche di Notte'', tendo Nastasja Kinski e Julian Sands no elenco.
''Padre Sérgio'', de Liev Tolstói, Cosac & Naify Edições, tradução de Beatriz Morabito, apresentação de Samuel Titan Jr., posfácio de Boris Schnaiderman, 130 páginas, capa dura, R$ 21,00.


