Dois eventos programados para amanhã, em Curitiba, confirmam uma tendência em voga no meio literário brasileiro: a das leituras, ao vivo, de trechos de obras. No Teatro da Caixa, acontece mais uma edição do projeto EntreMundos, que envolve atores, músicos e termina com um debate aberto ao público. Já o bar Wonka sedia o lançamento do livro ''Ocupado'', de Adriano Esturilho, também com direito a interpretação e sonorização dos contos do autor.
Em ambos os casos, a matéria-prima é a prosa - e não a poesia ou a dramaturgia, cuja leitura em voz alta sempre foi bem difundida. ''É importante não confundir. Nesse quadro, os textos em prosa ocupam um terceiro lugar, diferente dos outros dois'', afirma o músico e diretor teatral Flávio Stein, curador do EntreMundos.
Também responsável pelo projeto Extremos (realizado no Rio de Janeiro) e de rodas de leitura promovidas pela Fundação Cultural, Stein acredita que os eventos do gênero representam um resgate da tradição oral, que se perdeu nos últimos dois séculos. ''A leitura silenciosa é recente na história da humanidade. O que existe, hoje, é uma tentativa de recuperação do valor da palavra, que foi desgastada como ferramenta do dia a dia'', diz.
Em sua terceira edição, o EntreMundos pretende estabelecer um diálogo entre autores de épocas e lugares diferentes. Para isso, foram selecionados textos do francês Voltaire, do argentino Ricardo Piglia e do norte-americano David Foster Wallace. A direção é de Walter Lima Torres, que também lê trechos das obras ao lado das atrizes Jaqueline Valdíva e Maíra Weber. Completam o ''elenco'' o músico Gilson Fukushima e o tradutor Caetano Galindo, escalado para mediar o debate.
O debate, aliás, é uma atração à parte, segundo o curador. ''Noventa por cento do público continua no teatro para conversar. E, muitas vezes, o papo dura mais do que as leituras. Porque uma das funções da literatura é justamente colocar as pessoas em confronto com o mundo. Parte-se dos textos para falar da vida'', diz.
Já nas rodas de leitura, Stein se coloca como mais um integrante do grupo. O resultado, de acordo com ele, é uma participação ainda maior do público. ''Não é preciso ser um doutor no assunto para comentar um texto. Basta dar a sua impressão de leitor. Isso ajuda a desmistificar a obra, a tirar do pedestal autores considerados difíceis''.
Mas que tipo de preocupação os leitores devem ter para tornar a obra interessante e compreensível para quem ouve? Segundo Stein, é importante evitar ao máximo a teatralização. Afinal, quem lê está contando uma história, não é personagem dela.
Isso não significa que o leitor deve esconder sua emoção. Pelo contrário. Para o curador, que atualmente produz uma dissertação de mestrado sobre o tema, a falta de envolvimento tira o sentido do texto. ''Acredito que a leitura deve ser natural e intensa'', resume.

SERVIÇO

Projeto EntreMundos
Quando - Hoje, às 20h
Onde - Teatro da Caixa (R. Conselheiro Laurindo, 280)
Quanto - O ingresso custa um livro não-didático
Mais informações - (41) 2118-5111

Lançamento e leitura de trechos do livro ‘‘Ocupado’’, de Adriano Esturilho
Quando - Hoje, às 20h
Onde - Wonka Bar
(R. Trajano Reis, 326)
Quanto - Entrada franca até às 22h (o livro custa R$ 15)
Mais informações - (41) 3026-1167

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