A recriação de Dona Flor
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de abril de 1997
Biaggio Talento Agência Estado 
A minissérie Dona Flor e Seus Dois Maridos, baseada no romance de Jorge Amado, está sendo gravada na capital baiana. Uma equipe de cem técnicos e atores da TV Globo, do Rio, começou a preparar o set no início do mês, no bairro da Saúde, próximo ao Centro Histórico, para a gravação da maior parte das cenas externas da obra. Durante o carnaval, o ator Édson Celulari, que faz o papel de Vadinho, já havia gravado algumas cenas, participando do desfile do tradicional afoxé Filhos de Gandhi.
O diretor Mauro Mendonça Filho garante que a nova adaptação, escrita por Dias Gomes, é totalmente baseada no universo do livro e que ele procurou esquecer o filme de Bruno Barreto sobre o mesmo tema. Vi o filme mais de 20 vezes, diz, explicando que a obra cinematográfica é uma espécie de divisor de águas de sua família, pelo sucesso da interpretação de seu pai, o ator Mauro Mendonça, como Teodoro (o segundo marido de dona Flor).
Foi um trabalho premiadíssimo na carreira de meu pai, mas a gente está recriando o livro e é preciso esquecer isso. Ele pretende explorar ao máximo a galeria de tipos do livro. Dona Flor foi uma história que Jorge Amado tirou das ruas, criando um universo muito rico de personagens.
Menos sotaqueMendonça Filho informa que o sotaque dos atores não será carregado como nas novelas e especiais da Globo passados na Bahia. Na minha linha de direção a voz não é subterfúgio para criar um tipo, observa, dizendo que permitirá um vocativo ou outro característico da terra, mas nada carregado. Na mesma linha, justifica a escolha da atriz Giulia Gam para o papel de Dona Flor. A morena de cabelos espirrados é mais coisa de Gabriela Cravo e Canela: a gente quer pegar o lado baiano mais pelo espírito interior que pelo padrão visual que todo mundo está careca de ver.
A atriz Giulia Gam acha que esse é um aspecto ousado da
adaptação. Ela (Dona Flor) é descrita como a beleza máxima da mistura de raças, o índio, o branco e o negro, portanto eu fujo de qualquer semelhança física e étnica, diz, acrescentando que, nesse sentido, é uma obra inovadora. Já Édson Celulari encara como uma responsabilidade muito grande fazer o papel de Vadinho. É importante porque vamos atualizar a obra na Bahia de hoje (o livro foi escrito na década de 60) e Vadinho é o mesmo personagem sonhador, que vive vadiando. O ator Marco Nanini será Teodoro na minissérie.
O diretor Mauro Mendonça Filho percorreu Salvador com sua equipe, no início do ano, para escolher as locações e considerou o bairro da Saúde perfeito. O local reflete o clima que a gente quer nos personagens. Formado de velhos sobrados, o bairro é vizinho do Pelourinho, sendo separado do Centro Histórico pela tradicional rua da Baixa do Sapateiro. A equipe de produção escolheu um trecho de 17 casarões para compor o cenário principal. Os imóveis foram retocados e pintados. A parte superior de um mercadinho foi adaptada para ser o cenário da casa de Dona Flor.
Preocupado em reproduzir o clima quente da Bahia, o diretor de fotografia Elton Menezes conta que instalou lâmpadas especiais nos postes do bairro. Além disso, diz que vai usar duas câmeras digitais, de última geração, para a gravação da maioria das cenas externas. O equipamento torna a imagem sedosa, doce, mostrando mais detalhes com nitidez, explica. As gravações em Salvador devem prosseguir até dia 24.


