Esta semana, fiquei consternada com a tragédia que cercou a morte de Eduardo Campos, ex-candidato à presidência da República. Cada geração tem seus mortos e seus dias trágicos, diria que fomos testemunhas históricas de um desses momentos. Não era eleitora de Campos, na verdade sequer vou votar este ano, estou morando em outro Estado, prefiro justificar meu voto, mesmo porque os candidatos não me empolgam, não me identifico com o cenário político atual, para onde quer que eu olhe. Mas senti a morte do ex-candidato por se tratar de uma pessoa ética, capaz de articular situações que pareciam impossíveis. Senti, sobretudo, pelo aspecto humano, pelo pai que era, pela dor que seus moleques devem estar sentindo, pela dor de outros moleques que perderam os pais no mesmo acidente. É triste quando perdemos alguma coisa que representava um ponto de equilíbrio no meio da selvageria, um princípio ou mesmo um resquício de ética.
Quando acontecem coisas assim nos lembramos que a vida é frágil, situação esquecida no atropelamento diário quando desperdiçamos as chances de sermos um pouco melhores. Não acho graça em piadinhas de mau gosto nem em dias normais – é, sou chata ou assisto poucos programas de "humor" na TV e perdi o jeito para banalidades. Acho menos graça ainda em piadas em dias marcados por tragédias. Depois do acidente alguns comentários nas redes sociais ultrapassaram a faixa da deselegância e correram para a maldade mesmo que representa a falta de uma condição básica: o sentido de humanismo. Havia piadas sobre as causas do acidente e as conjecturas de sempre sobre conspirações. Ninguém exclui a possibilidade de haver conspirações no mundo, sobretudo no mundo da política, mas há que se discernir ficção de realidade sempre que possível e não ficar martelando conjecturas como detetives canastrões e sem provas. O pior de tudo foi ver saltarem da caixa escura de alguns os sentimentos de raiva, de partidarismo em momento de tragédia ou jocosas atitudes que tentam transformar tudo em piada, desde que não diga respeito às suas vidas.
Ainda teve gente antecipando a contagem dos votos no mesmo dia do acidente, fazendo ilações sobre as vantagens e desvantagens que a tragédia representa, também havia notícias de reuniões veladas de partidos trabalhando o drama nos bastidores. Houve ainda quem saiu correndo para atacar Marina Silva, com medo que ela substitua Campos e ameace candidaturas consideradas mais promissoras. Aquele seu escore de 20 milhões de votos nas eleições de 2010 ainda está engasgado na garganta de muita gente. Mas em face do acidente da última quarta-feira, alguém cogitar no mesmo dia quem ia perder ou ganhar as eleições tirando uma lasquinha da tragédia me pareceu uma covardia. Para alguns não houve sequer um minuto de silêncio, nenhum sinal de respeito aos mortos.
Observando o movimento das redes sociais tem-se um bom panorama do pensamento político e do comportamento das pessoas diante de fatos duros como a morte repentina, a notícia funesta, a tragédia alheia. Quase tudo virou um grande espetáculo e muita gente blefa para obter seus minutos de fama, como a testemunha falsa que deu entrevista a uma rede de televisão afirmando que viu o corpo de Eduardo Campos e até lhe abriu um dos olhos. A realidade, às vezes, consegue ser pior que a ficção e as pessoas piores que personagens de filmes macabros. Torço para que um dia a gente escape do cerco das nossas atitudes condicionadas por uma cultura violenta que não reconhece mais a dor do outro e, o pior, procura tirar alguma vantagem dela.

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