A REALIDADE NUM QUARTO DE PENSÃO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de fevereiro de 2001
Jackeline Seglin De Londrina 
A dura realidade retratada na obra de Plínio Marcos está de volta aos palcos de Londrina com a montagem da peça Dois Perdidos Numa Noite Suja por alunos da Escola Municipal de Teatro (EMT). Os formandos Luiz Eduardo Pires e Rogério Costa levam o espetáculo ao Bar Valentino, hoje e amanhã, às 21h30, sob direção de Silvio Ribeiro.
Em Dois Perdidos..., um pequeno quarto de pensão se transforma num ringue para Paco e Tonho, dois homens que lutam pela sobrevivência na cidade grande em meio a um jogo de poder. A tônica do espetáculo é o drama desses homens, que dividem o mesmo quarto de pensão presos em suas angústias, fruto da solidão e da falta de oportunidade dos grandes centros urbanos, detalha Silvio Ribeiro.
Para o ator Rogério Costa, que interpreta Tonho, seu personagem é um homem humilde, honesto, que veio do interior e tem fortes laços familiares. Ao chegar à cidade grande, se depara com uma situação diferente da que idealizava. A convivência com o parceiro de quarto não é nada fácil. Paco faz de tudo para irritar Tonho. Na verdade, faz isso para segurá-lo naquele mundo. Assim, o clima é tenso o tempo inteiro. Essa opção pela violência e o que leva as pessoas a ter essa alternativa é o que mais choca na peça, acredita.
No pequeno palco do Valentino, os atores permanecem em cena durante os 65 minutos de espetáculo. O cubículo da pensão é o cenário que aprisiona os personagens numa luta cada vez mais acirrada. Eles vão estreitando os laços e não conseguem se desvenciliar, conta o diretor.
Para trabalhar a concepção de Dois Perdidos... e estabelecer contato com o universo dos personagens, Silvio Ribeiro buscou referência em seu trabalho com crianças e adolescentes da Acalon Escola Oficina. Tive contato com a ótica de mundo deles e foi isso que tentei passar para os atores. Apesar da peça tratar de dois homens, parti da experiência de adolescentes que vivem situações de idade que, na realidade, não é a deles. A sociedade não dá oportunidades de fazer opções, diz.
Para o diretor, a experiência é um desafio não apenas para os atores. Acostumado a levar comédias a palcos de bares na época em que era diretor do grupo Chaminé Batom, ele agora se depara com um universo diferente, mais agressivo e violento, porém, que faz também parte do cotidiano brasileiro. É um risco que resolvi assumir, diz.
O texto de Plínio Marcos foi apresentado ao diretor pelos próprios alunos da EMT, que sugeriram uma montagem paralela à da formatura da escola, prevista para março. O espetáculo que estréia hoje foi montado em apenas um mês, com ensaios diários. No processo de criação nós três estudamos juntos, observando cada diálogo, cada frase, cada entonação. O texto tem como característica a repetição, que marca o clima estressante do espetáculo. Por isso fizemos várias leituras para chegar à forma mais adequada a cada momento do espetáculo, explica Ribeiro.
Escrita na década de 60, Dois Perdidos... é uma das principais peças de Plínio Marcos, ao lado de Barrela e Navalha na Carne. Apesar de não ter sido o primeiro texto escrito pelo dramaturgo, foi o primeiro encenado e censurado logo em seguida. Além do Brasil, a peça tem montagens na França, Alemanha, Estados Unidos e Inglaterra, além de uma versão para o cinema.
Dois Perdidos Numa Noite Suja, espetáculo com os atores Luiz Eduardo Pires e Rogério Costa. Texto: Plínio Marcos. Direção: Silvio Ribeiro. Hoje e amanhã, às 21h30, no Bar Valentino (Avenida Bandeirantes, 61), em Londrina. Iluminação: Luiz Eduardo Pires. Operação de luz: Rodrigo Fregnan. Sonoplastia: Silvio Ribeiro. Ingressos a R$ 3,00. Apoio: Escola Municipal de Teatro e Bar Valentino.


