A REALIDADE IMITA A FICÇÃO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de setembro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<BR>Especial para a Folha 2 
Nenhuma trucagem, nenhum efeito, nada de miniaturas ou cromaquis, ausentes aqui o computador e os recursos digitais da modernidade. Como catástrofe espetacular, parece definitivamente impossível que o cinema possa igualar. O terrorismo, que sacudiu Manhattan e o resto do mundo, elevou a realidade à categoria ''hors concours'' no confronto direto com a ficção. Não há registro, na memória visual do cinéfilo mais calejado, de tal coleção de imagens. A criatividade mais implausível, mais extravagante de roteiristas a serviço do entretenimento de massa foi ontem liquidada de vez pelo timing de uma impecável orquestração de terror. Assustados, entre a polvorosa e o pânico, os novaiorquinos entrevistados nas ruas se lembravam sempre de mencionar que a tragédia ''parecia mais um filme''. Mas por mais que o faz-de-conta tenha se esforçado, não há parâmetros.
Hollywood fez de tudo para abalar os nervos das platéias americanas e impressionar o resto do mundo, quanto a ameaças a suas maiores cidades. Fossem por causas naturais (''Terremoto'', ''Inferno na Torre'', ''Impacto Profundo'', ''Armageddon''), ou com monstros pré-históricos e por forças alienígenas pela via da ficção científica (''O Dia em Que a Terra Parou'', ''Guerra dos Mundos'', ''Godzilla'', ''King Kong'', ''Independence Day'', ''Marte Ataca!''). Mas em 1991 George Bush pai, então presidente dos Estados Unidos, advertiu que o país não tinha porque buscar inimigos no espaço sideral. Depois de submeter o Panamá, e enquanto invadia o Iraque, Bush e Hollywood, como seu braço ideológico mais eficiente, decidiram que o mundo era um lugar muito perigoso. Surgiu então a ameaça concreta do terrorismo internacional a rondar as grandes cidades, aparentemente muito seguras. País jamais invadido, ou perturbado internamente por atentados, os Estados Unidos exportaram a noção temor da irracional retaliação do radicalismo islâmico - e estavam eleitos os principais vilões da América e por extensão da indústria cinematográfica, pelo resto da década. O reflexo, entre muitos outros, foram Bruce Willis e seus ''Duro de Matar''. Ou o mais recente e quase premonitório ''Nova York Sitiada'', que há três anos - e neste exato momento se sabe quanto pode ser inócua a ficção - antecipava ações terroristas na cidade agora dominada pelo medo.
Para lembrar:
Cena um - King Kong, o gorilão apaixonado na segunda versão, a de 76, escala uma das torres do World Trade Center que ontem viraram pó para ficar mais a sós com a musa, Jessica Lange. Pela primeira vez, e ainda assim apoiado por efeitos apenas razoáveis, aviões se aproximavam dos gigantes de concreto. Kong era abatido e acabava morto na rua, diante da multidão.
Cena dois - No bem mais sofisticado ''Inteligência Artificial'', em exibição nos cinema, o quase humano garoto David está em Nova York inundada, em algum ponto a frente no século 21. Apesar de submersas, lá estão elas, as duas torres do WTC, inteiras.
Cena três - Charlton Heston, em fuga do ''Planeta dos Macacos'' desce do cavalo, no último e mais impressionante plano do filme. A princípio o espectador não sabe o que o personagem está vendo. Ou porque ele se desespera. Mas logo parte do corpo da Estátua da Liberdade aparece, enterrada na areia, destruída provavelmente por uma grande guerra. Ontem, por pouco, muito pouco - e por enquanto - a realidade não imitou a ficção.


