Ele tinha 16 anos quando viu o mar pela primeira vez. A maresia daquela imensidão colocou um novo brilho em seus olhos. Decidiu que, a partir daquele dia, viveria cercado pelas ondas. Seria um marinheiro errante navegando pelo mundo afora.
Nascido na Polônia em 1857, seu nome era Józef Teodor Konrad Nalecz Korzeniowski. Como marinheiro realizou viagens pelos sete mares. Mas como não viveu nenhuma daquelas histórias repletas de aventuras que lia nos livros, resolveu viver ancorado. Com 37 anos, abandonou a profissão de marinheiro para inventar histórias. Começou a escrever contos, novelas e romances repletos de homens misteriosos vagando pelos cais dos portos, marinheiros delirantes jogando a vida pelos mares, tempestades enlouquecendo navios, lugares exóticos e sombrios devorando a alma dos incautos e muito mais.
De simples marinheiro, ele se tornaria um dos grandes nomes da literatura de língua inglesa – língua que abraçou de maneira deliberada. Mais conhecido como Joseph Conrad, ao morrer em 1924 deixou obras como ‘‘Lord Jim’’, ‘‘O Tufão’’, ‘‘O Espelho do Mar’’, ‘‘Nostromo’’, ‘‘A Flecha de Ouro’’, e ‘‘O Coração das Trevas’’. Esta última, publicada em 1902, é um de seus textos mais enigmáticos, coberto pelas sombras do espírito humano e pelas brumas da violência imperialista. Francis Coppola realizou uma adaptação atordoante da história para o cinema, em 1974, com o título ‘‘Apocalypse Now’’.
Em comemoração ao centenário de publicação de ‘‘O Coração das Trevas’’, a Editora Iluminuras está colocando nas livrarias uma nova edição do romance. Para quem ainda não conhece a literatura de Joseph Conrad trata-se de uma ótima oportunidade para entrar em contato com ela. A edição ainda traz o conto ‘‘O Cúmplice Secreto’’, texto que reforça a atmosfera sombria e misteriosa de vários personagens criados pelo escritor.
‘‘O Coração das Trevas’’ é o relato de um navegador sobre um marcante acontecimento do passado. Contratado para navegar pelos rios da África para transportar marfim para a Europa, ele entra em contado com um mundo desconhecido e apresenta sua relação com a região, com os nativos escravizados e principalmente com um misterioso homem chamado Kurtz.
Uma certa magia envolve Kurtz. Ele consegue extrair marfim da África em grandes quantidades nunca vistas. Ninguém sabe ao certo como ele o faz, mas é cultuado como um homem superior aos demais. Um homem que consegue sobreviver num mundo onde a morte é soberana.
O romance de Conrad oferece várias interpretações e leituras. Ambientado no final do século 19, o livro apresenta as vielas da colonização européia na África. E o retrato apresentado é, no mínimo, assustador. Uma época em que países da Europa começaram a invadir outras partes do mundo para usurparem riquezas naturais e azeitar a máquina da industrialização e do capitalismo.
Além dessa abordagem histórica, outra leitura sugere algo de maior impacto: o mergulho de um homem nas trevas para tentar encontrar o âmago de sua existência. O narrador de ‘‘Coração nas Trevas’’, além de mergulhar nas trevas dos ambiente, também se atira contra seu íntimo. Utiliza, para isso, a imagem do outro – no caso a misteriosa figura de Kurtz. Além da aventura de sua viagem espacial, o narrador realiza uma outra viagem, sombria e perturbadora em direção às possibilidades da integridade moral.
A capacidade descritiva da literatura de Joseph Conrad tem a propriedade de levar o leitor a um deslocamento de tempo e espaço. Onde o outro pode operar não apenas como espelho, mas como um duplo oculto que submerge das trevas – e esconde a tranquilidade num cofre forte. Em outras palavras, realidade é loucura.
Serviço: ‘‘O Coração das Trevas’’ de Joseph Conrad, Editora Iluminuras, tradução e apresentação de Celso M. Paciornik, 192 páginas, R$ 28,00.

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