Curitiba A ficção e a realidade estão cada vez mais interligadas. No cinema não é diferente e essa união já configura uma tendência do cinema nacional. Essa é a opinião do cineasta paulista Toni Venturi que esteve em Curitiba para lançar o seu mais recente filme, ''Cabra Cega''. O longa-metragem já participou dos mais importantes festivais de cinema do País, conquistando os prêmios de melhor filme, júri popular, melhor diretor, melhor ator (Leonardo Medeiros), melhor roteiro e melhor direção de arte, mas só agora chega ao circuito comercial da capital. A produção é resultado de um projeto de pesquisa extenso que reflete em detalhes como a confecção primorosa e fiel dos materiais de época utilizados. ''É quase um jogo de sete erros'', brinca o diretor.
Essa preocupação com detalhes sempre esteve presente no trabalho do cineasta. Venturi nasceu em 1955, em São Paulo, e estudou cinema na University Of Ryerson, em Toronto, no Canadá, país onde esteve por dez anos. Antes de se dedicar à produção de curtas e longas-metragens, ele chegou a dirigir programas eleitorais do PT e a série Teletubbies, da TV Globo. Em 1989, Venturi realizou o curta-metragem ''Guerras'', documentário sobre o poeta Antonio José da Silva. Em 1997, dirigiu o longa ''O Velho'', sobre a vida de Luiz Carlos Prestes, e em 2001, ''Latitude Zero''. Incluindo ''Cabra Cega'', todos os filmes assinados pelo cineasta têm em comum a densa carga realista. A seguir os principais trechos da entrevista que Toni Venturi concedeu à Folha2
Você acompanhou o período da ditadura no Brasil e de mudanças políticas essenciais para o País. Isso influenciou e continua influenciando na escolha dos seus trabalhos, já que você fez filmes e curtas essencialmente
políticos e realistas até agora?
A minha formação no ginásio foi muito marcante. Estudei numa escola de vanguarda, a escola estadual Oswaldo Aranha, em São Paulo. Era uma escola muito à frente do seu tempo, baseada numa pedagogia de Paulo Freire e Piaget e que permitia descutir o meio político, cultural e social em que você vivia. Além disso vivíamos um tempo em que a questão política era a questão principal. O mundo estava vivendo todas as revoluções, desde a revolução moral até a revolução das mulheres. Eu vivi isso na minha adolescência, mas estava inserido nesse contexto com muita consciência. Participei perifericamente de algumas passeatas em 68, mas depois a gente entrou naquele profundo silêncio. Naquele cemitério da censura pesada, do medo. E eu me afastei de tudo.
Nessa época você foi morar fora do País ?
Não. Foi mais tarde. Em 1974 saí do Brasil para conhecer a América Latina e dois anos depois eu fui para o Canadá. Eu estava muito insatisfeito no Brasil. O país viveu a repressão fortíssima, mas eu passei ao largo da luta política porque ainda era muito jovem. Antes de sair do Brasil, eu estudei história, tema que sempre fez parte da minha vida e que de alguma forma continua me influenciando. Por isso meus filmes falam ou da nossa história política ou da questão social brasileira. Mas é obvio que quando eu faço cinema eu não estou fazendo tese. O cinema serve para entreter as pessoas. É uma forma de entretenimento que, do meu ponto de vista, pode ser inteligente. Não precisa ser vazia, nem alienada, nem alienante.
Você já circulou nas duas vertentes do cinema, na ficção e no documentário. O que te agrada mais?
Eu tenho um pé nos dois lados e me sinto muito à vontade com isso. Não há desconforto nenhum. Pelo contrário. Por minha formação ter sido no Canadá, que tem uma indústria do documentário muito forte a minha formação de documentarista é fortíssima também. Isso juntou com a minha ligacão com a realidade. Então quando eu parti para a ficção eu trouxe essa realidade. O ''Cabra Cega'' é um exemplo disso. É um projeto muito interessante porque ele parte de uma pesquisa, a pesquisa do real. Eu entrevistei longamente 11 ex-guerrilheiros. Todos ilustres anônimos (com exceção do ministro José Dirceu) hoje com 60, 65 anos. Essas entrevistaram geraram um documentário chamado ''No Olho do Furacão'' e serviram como base das histórias que Di Moretti e eu utilizamos no roteiro de ''Cabra Cega''. Nesse caso, o documentario, o real, serviu de base para a ficção.
As duas coisas não são incompatíveis?
Eu não vejo como incompatíveis. Um pode beber no outro. O filme moderno hoje tem uma moldura do real muito próxima. Você pega um pouquinho do cinema argentino, por exemplo, ou até trabalhos nacionais bem-sucedidos, como o ''Amarelo Manga'' e você percebe que eles estão inseridos dentro de uma moldura do real. Mas aquelas ''mis-en-scènes'' muito construídas pode ser um pouco artificial e é aí que as pessoas devem tomar cuidado
Você acha que essa união da ficção e do realidade é uma tendência do cinema brasileiro hoje?
Com certeza. E isso vem de um processo em que está inserido a confluência dos suportes e da revolução digital. O meio deixou de ser tão importante. Não importa mais o formato, importa muito a linguagem. E o cinema digital tem permitindo uma produção maior. Você vê filmes como ''Contra todos'' do Roberto Moreira, feito em digital ou o o trabalho do pessoal do Dogma, na Dinamarca e percebe que o suporte deixou de ser a questão. As possibilidades estão se abrindo, mas as pessoas têm que trabalhar o roteiro, o conteúdo da proposta e a linguagem. Forma e conteúdo estão ligadas.
Seus novos projetos estão inseridos nesse contexto?
Tenho três novos projetos. Um ficção e dois documentários. O primeiro vai se chamar ''Antes da Noite''. É um filme contemporâneo, que se passa em São Paulo, com roteiro meu e do Di Moretti e fala da transformação de uma mulher que descobre que está morrendo. É uma mulher consumista, materialista, que descobre o lado espiritual da vida. Vai ser um elenco mais conhecido e mais caro do que ''Cabra Cega'', que foi um filme de baixo orçamento. Tambem existe a possibilidade de um ator internacional ser escalado, mas ainda não posso adiantar quem. O filme é uma ode de amor à minha cidade e está previsto para 2006, 2007.
E os outros dois projetos?
Um deles é um documentário em co-produção com a França. Já está todo filmado em fase de finalização. É um longa-metragem que trata de quatro mulheres muito pobres e que são líderes do movimento sem-teto de São Paulo. São quatro guerreiras que levam suas vidas sem marido, têm seus filhos e além de toda a sua luta pessoal tem a sua dignidade. O outro é uma cinebiografia de Leonel Brizola. Estamos pesquisando ainda e provavelmente vamos filmar em Porto Alegre.

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