Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha2
Há crianças que possuem uma certa tendência a desenvolverem o medo do escuro. Mesmo não havendo nenhum motivo lógico, o escuro impõe seus fantasmas. Do mesmo modo, há adultos que possuem uma facilidade a desenvolverem o medo da claridade. Mesmo não havendo motivos racionais, a luz revela seus monstros.
Esse fenômeno pode ser lido de uma maneira simples. Uma criança no escuro, não vendo as coisas, precisa inventá-las e suas criações podem ser tão reais quanto a própria realidade. Um adulto na claridade vê todas as coisas, os detalhes mais ocultos, e assim não pode inventar pois tudo está claro, absolutamente real.
Em algumas situações, a realidade, seja real ou inventada, assusta e atormenta. O protagonista do romance ‘‘O Ponto Cego’’, de autoria da escritora e tradutora gaúcha Lya Luft, é atormentado por esse incômodo da realidade, especialmente a realidade do ambiente familiar. Trata-se de um garoto que, do ponto de vista infantil, reflete sobre a própria família: um pai autoritário, uma mãe submissa, uma avó louca, um tio depressivo e uma irmã superprotegida. Todos, cada um ao seu modo, desprovidos de felicidade.
Diante deste quadro, associado às suas próprias particularidades, o garoto decide não crescer. Opta permanecer pequeno para o resto da vida. Recusa-se a ser um adulto e viver como os adultos vivem. Na realidade constata que os adultos não vivem suas próprias vidas, mas vidas alheias, impostas ou exigidas.
Lançado pela Editora Mandarim, ‘‘O Ponto Cego’’ é narrado pelo próprio menino numa elaborada linguagem adulta. Em sua prática de não crescer, constata que, embora tenha conseguido reter seu desenvolvimento, não conseguiu reter seu crescimento interior: ‘‘Fiz um pacto e executei os rituais, mas começo a ver que mais do que narrei estou sendo narrado: pois não parei simplesmente de crescer. Estou mudando de muitas formas. Minha altura continua a mesma, mas por dentro eu ainda cresço.’
Nesse processo, passa a considerar que tudo aquilo que viu e refletiu não corresponde exatamente à realidade concreta, mas uma outra realidade, a realidade de sua invenção, de sua imaginação. Como inventor da realidade, sente-se seguro. Mas quando as coisas se invertem, quando a realidade exterior torna-se crua e concreta, passa a admitir que ele próprio não passa de um invenção de seu próprio foco de visão.
Lya Luft constrói um labirinto narrativo onde fica difícil definir onde começa a fantasia e termina a realidade na mente do narrador. Faz uso da metaliteratura, ou seja, utiliza a literatura para abordar o próprio ato da escritura. No fundo está expondo os conflitos do exercício da literatura. As diferenças entre personagem e indivíduo se confundem. Mesmo assim, alguns se salvam graças ao chamado da vida: ‘‘Há coisas que ninguém saberia explicar: a gente pressente ou desconfia. Escorrem sobre nós como cera derretida: quando esse fogo líquido se firma tudo está conformado e configurado, e não escapamos mais. A libertação seria incendiar-se outra vez e suportar a dor terrível para que a massa voltasse a se liquefazer.’
O Ponto Cego – De Lya Luft, Editora Mandarim, 155 páginas, R$ 18,00.

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