Há uma história antiga a propósito de poesia, segundo a qual todo poema já está escrito, bastando olhos-de-ver para certificar-se de que ele, artefato baldio, está aí desde sempre. Os poetas, para usar uma sintaxe antiga, não faríamos outra coisa senão retraduzi-lo, o poema, da massa indistinta em que vige ao império das coisas que soam exaltadas, beligerantes.
Kierkegaard, não nos esqueçamos, um homem que salvou-se de si mesmo, pela via da ‘‘organização’’ de um saber ‘‘pessoal’’, ‘‘intransferível’’, opunha a esta idéia aí acima, francamente panteísta, uma outra, mais crua e nem por isso menos intrigante - embrutecido pelo instinto odioso, a espécie humana teria encontrado no poema o seu ‘‘modo-de-fuga’’, não para escapar de si, tarefa de resto impossível, mas para pôr em movimento o requinte perverso que é, do homem, segundo o sombrio dinamarquês, a sua ‘‘mais alta marca e o seu maior ímpeto’’.
Para que serve a poesia? Quantas vezes, Paulo Leminski, dentre os nossos poetas acaso o mais altivo, aqui nestas mesmas folhas, se perguntou e se respondeu de pronto que a poesia não servia para nada? Em termos: ‘‘inutensílio’’ precioso, o poema é uma quimera e pode que faça escada para o céu. A imagem é boa e não é minha - manifestou-a o quase esquecido Ascenso Ferreira, esquecido até mesmo em seus Pernambucos, de onde, aliás, recebo notícias, através de Jomard Muniz de Britto, o ‘‘vice-rei do nordeste’’, dando conta de que preparam homenagens ao poeta de ‘‘Catimbó’’.
Os excessos nacionalistas, curioso anotar, de Ascenso, e mesmo de Manuel Bandeira, outro pernambucano ilustre, parecem ter colaborado para sepultar no esquecimento o que havia talvez de melhor nos modernistas - o ‘‘brasilsismo’’, de que falava Osvald, ao fim da vida, não sem uma ponta de nojo.
‘‘Tudo passa/ só não passa/ a graça/ de ver um saci/ pernetear’’. Esta dicção zombeteira, brasiliana, muita vez de um exotismo quase intragável, imperioso considerar, foi a melhor herança que nos deixaram os primeiros modernistas. Havia ali o chiste e o descompromisso, a verve e o gosto pelo imprevisto que faz um poema-minuto, a exemplo do citado, por-se de pé com a ‘‘virtú’’ de uma ode de Dante Alighieri.
Tanto um quanto a outra, retomemos o fio da meada, indispensáveis ainda que absolutamente des-necessários, são perenemente animados por esta contradição em termos, que faz da poesia tudo o que se ganha e tudo o que se perde - para lembrar uma das aulas - brasileiras - de Ungaretti, que a editora Ática reuniu em livro, há não muito tempo e que recebo, presente-aniversário, do meu amigo, o editor (e poeta magnífico), Fernando Paixão.
Ninguém melhor contudo que os orientais para expressar, de modo absoluto e radicalizado, esta ambiguidade suprema que é a poesia - seja ela o pincel irrepetível de Kobaiashi Issa sobre o papel-arroz ou a cançoneta esquiva da prostituta japonesa do porto de Yokohama - ambos a tradução tão sublime quanto vagabunda do gosto de viver a vida, não com ‘‘propósitos’’ e ‘‘denodados objetivos’’, mas um vivre pour vivre que é pura fruição e fluxo contínuo, alta expressão daquele perpétuo rio de Heráclito, álgebra e rumor. Ao Fujie sobes
Pequeno Caracol
- Mas sobes!

mockup