Juazeiro do Norte, CE, 09 (AE) - Em época de romaria, Juazeiro do Norte parece cenário de filme do Cinema Novo. Caminhões, daqueles do tipo pau-de-arara, fazem fila para entrar nessa que é agora a terceira cidade mais populosa do Ceará, perdendo apenas para Fortaleza e Caucaia. No caminhão, chegam os romeiros, famílias inteiras, inconfundíveis com seus chapéus de palha, enfeitados com as fitinhas do padre Cícero. Padre Cícero Romão Batista, padim Ciço, para os devotos, é o ímã simbólico que atrai toda essa gente dos quatro cantos do sertão. Eles vêm das cidades cearenses próximas, mas principalmente de outros Estados, Pernambuco, Alagoas, Bahia, Rio Grande de Norte, Maranhão.
Chegam também de ônibus, mas o pau-de-arara continua sendo o principal meio de transporte. O curioso é que o pau-de-arara chegou a ser proibido anos atrás, como desumano e perigoso, mas a grita geral fez os governantes voltarem atrás. O caminhão, em geral pequeno, tem a parte traseira coberta com uma lona e algumas tábuas transversais servindo de banco. Encosto, nem pensar. No fundo, pode-se estender uma rede. Ou duas. Agora, imagine uma viagem dessas, por centenas ou milhares de quilômetros, pelas precárias estradas do semi-árido, com sol escaldante sobre a cabeça.
Eles chegam em levas. Não há estatísticas confiáveis, mas são sempre centenas de milhares. Vêm o ano todo, mas concentram-se nas principais romarias, a de Nossa Senhora das Candeias, de Finados e a da Semana Santa; uma para o nascimento e outra para a morte de padre Cícero. Hoje em dia, buscam-se informações mais confiáveis. O pároco de Juazeiro, padre Murilo, faz com que cada caminhão que chega à cidade seja cadastrado. As informações são guardadas num banco de dados e servirão como fonte segura para os futuros números da fé.
O romeiro vem com agenda cheia e itinerário pré-traçado. Ele "arrancha-se", dizem os moradores. Quer dizer, vão para os "ranchos", locais onde podem estender suas redes e cozinhar por qualquer coisa como R$ 2,00 por dia e por cabeça. Na romaria de Finados, a maior delas, eles começam a chegar timidamente três, quatro dias antes do feriado. Dia 1.º de novembro a cidade está fervilhando. No dia seguinte, eles assistem à missa da despedida, a "missa do chapéu" e vão-se embora. Na cidade, andam um pouco por toda a parte, mas não podem deixar de visitar os lugares sagrados.
Primeiro, a Igreja do Socorro, onde estão os restos de Cícero, morto em 1934. Depois, a Matriz de Nossa Senhora das Dores, em frente da qual há a grande praça onde são rezadas as missas campais. Há o Memorial Padre Cícero, com exposição de fotografias e objetos que pertenceram ao sacerdote. Na praça da Igreja do Socorro, há a Casa dos Milagres, com ex-votos e agradecimentos pelas graças recebidas. Perto dali, na Rua São José, existe ainda a casa de padre Cícero, onde ele morou e morreu. É um dos lugares de mais forte devoção. O objeto mais procurado, aqui, é a cama onde morreu o padre. Dependendo do dia
é difícil chegar até ela, tamanha a multidão que se espreme em torno.
O outro local de culto é mais distante. O Horto do Padre Cícero compreende a estátua de 17 metros, que completou 30 anos de construção na semana passada; o Museu Vivo, com estátuas em tamanho natural representando o cotidiano do padre, e o Santo Sepulcro, um pouco mais adiante, lugar de difícil acesso, entre pedras, onde, conta-se, Cícero costumava meditar. Tudo o que se refere ao padre é consagrado. Os fiéis encostam garrafas dágua no túmulo de Cícero e com isso obtêm água benta. Colocam seus chapéus na cabeça das estátuas do padre, passam a mão na cama onde ele morreu. Alguns colocam os óculos ou muletas em cima da cama.
Com o passar dos anos criaram-se alguns rituais. Os devotos tentam atravessar entre as pedras apertadas do Horto, ou atrás do cajado da grande estátua de Cícero. Diz a lenda que os puros de alma conseguem passar; os pecadores encalham. Por motivos óbvios, os gordos são raros entre os romeiros. Mas existem alguns. Estes se esfolam para demonstrar que são dignos do padim. Culto - O mais empedernido dos materialistas não deixa de se comover com as demonstrações de fé. Cícero é um santo do povo, não da hierarquia da Igreja. A comunicação de sua simbologia com o imaginário popular é direta. Nos locais de culto, as pessoas estão de tal modo concentradas em sua fé que não ligam para o que acontece à sua volta. Por isso, os fotógrafos podem trabalhar sossegados, pois o naturalismo das poses está garantido. É comum ver as pessoas chorando, ou clamando em voz alta por alguma graça ou auxílio. Não pedem nada às outras pessoas. Pedem ao padrinho.
Bem diferente dos romeiros são as levas de mendigos que os acompanham. Estes também vêm de toda parte. Dizem os moradores que são mais numerosos em tempo de seca, quando a única coisa que cresce no campo é a miséria. Havia uma multidão deles em Juazeiro do Norte, este ano. Uma peregrinação à terra do padre Cícero é também um mergulho pedagógico no Brasil real. Todo brasileiro deveria ir lá uma vez na vida, como fazem os muçulmanos em relação a Meca.

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