A questão palestina
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Antonio Gonçalves Filho<br> Agência Estado 
Quando até o ditador líbio Muamar Kadafi, que já apoiou terroristas e pregou a destruição de Israel, reconhece que israelenses e palestinos são interdependentes e devem coexistir sob um único teto, era de se esperar que surgisse um escritor capaz de traduzir em ficção essa união incontornável. Esse autor é uma mulher, nascida numa família de refugiados da Guerra dos Seis Dias, em 1967, e criada em vários lugares até conseguir a cidadania americana e estudar ciências biomédicas na Universidade da Carolina do Sul. Cansada de ler textos frios sobre o conflito palestino-israelense, Susan Abulhawa decidiu escrever um romance quente, A Cicatriz de David, ambientado entre 1941 e 2002 , justamente no lugar mais explosivo do planeta. O livro faz o maior sucesso nos EUA e pode vir a representar para os palestinos o que O Caçador de Pipas virou para os afegãos.
Susan Abulhawa não nega que, a exemplo de Khaled Hosseini, há em seu livro um pouco de militância pela preservação da memória de seus ancestrais. A narradora, Amal, nascida num campo de refugiados, preferiu, como a autora, partir para os EUA, mas não esqueceu os antepassados. Um deles é o David do título, chamado Ismael, como o filho de Abraão, antes de ser raptado por um oficial israelense - cuja mulher não pode ter filhos - e criado como uma criança judia. Vinte anos mais tarde, David vai lutar numa guerra fratricida contra o irmão mais velho, que o reconhece pela cicatriz no rosto.
É preciso ler A Cicatriz de David como uma narrativa transcultural que rejeita o apartheid, o nacionalismo e o fundamentalismo religioso. O livro, antes de tudo, é sobre a preservação da memória palestina.


