São Paulo, 17 (AE) - A cena ocorre antes do início do espetáculo "A Que Ponto Chegamos", dirigido e concebido por Oswaldo Mendes, com Estér Góes, Walter Breda e o pianista Tato Ficher. Ao entrar no Teatro do Sesc Santo Amaro - onde a peça estréia amanhã (18) - o espectador depara-se com Ester e Breda lendo jornais do dia. Enquanto o público se acomoda, eles comentam uma ou outra notícia, como se estivessem entre amigos. Cotidiano demais? Para ouvir e ver o que o espectador troca o conforto do sofá da sala, enfrenta o trânsito e ainda paga? Foi a partir desse tipo de inquietação que nasceu "A Que Ponto Chegamos".
A iniciativa partiu de Ester Góes, que convidou Mendes para juntos conceberem um espetáculo. Em seguida, Breda juntou-se ao grupo. "A gente se reunia para pensar e essas perguntas - o que fazer e por que fazer - vinham sempre à tona; a gente começava falando disso, passava pelas dificuldades de produção e acabava invariavelmente discutindo a situação do País", lembra Mendes. Depois de vários encontros e muitas dúvidas, sobraram as certezas de sempre, entre elas a de que um espetáculo deve, antes de mais nada, ser divertido, porque é para divertir-se que o espectador sai de casa.
"Mas também para acompanhar uma boa discussão de idéias
também para ser provocado a refletir, também para ser alimentado da esperança de poder transformar o mundo para melhor", diz o diretor. "A Que Ponto Chegamos" começa como uma conversa sobre o que fazer e aos poucos se transforma num musical ora engraçado, ora emocionante, que mescla poesia, música e trechos de peça de Bertolt Brecht com textos de Mendes. "Para provocar uma boa reflexão, nada como apelar para o bom e velho Brecht", afirma ele.
O trio inicial virou quarteto com o reforço do pianista Tato Ficher, que compôs duas músicas para o espetáculo, faz participações como ator e ainda executa, ao vivo, as oito canções do espetáculo. Entre elas estão "Poema da Rosa", com música de Jards Macalé e letra de Augusto Boal sobre o original de Brecht na peça "Mãe Coragem". E Mendes criou novas letras para músicas conhecidas de Kurt Weill e Brecht como "Canção de Salomão" e "Havana Song".
O espetáculo tem apenas duas cenas de peças. Na primeira delas, Ester vive a personagem central de "Mãe Coragem" no momento em que ela visita o filho, preso por sua militância política. Na cela, diante do filho preso, ela decide assumir as tarefas políticas por ele interrompidas, como a distribuição de panfletos, numa cena de grande teatralidade e, sobretudo, comovente.
"Comoção em Brecht?!" podem espantar-se alguns. "Brecht só criou o que criou porque tinha muita sensibilidade e uma paixão intensa pela humanidade", argumenta Mendes. Comove igualmente a cena que fecha o espetáculo, também a última da peça "Galileu", de Brecht. Ameaçado de tortura pela Santa Inquisição, Galileu negou que a Terra girasse em torno do Sol. "Depois de ter escapado da ameaça, ele reflete sobre o seu ato e o papel do cientista em um dos textos mais bonitos do teatro"
observa Mendes.
"Num determinado momento, ele chega à conclusão de que ou a ciência existe para aliviar o sofrimento humano ou não tem nenhum sentido". O mesmo pensamento move o quarteto de criação de "A Que Ponto Chegamos". "Esperamos não só aliviar o peso do dia-a-dia com alguma diversão como juntos refletirmos sobre a necessidade de fazer algo para melhorar o mundo em que vivemos"
diz Mendes. "Tomara que tenhamos conseguido".
Serão só duas apresentações de "A Que Ponto Chegamos", amanhã e sábado, no Sesc Santo Amaro. Por enquanto. Em 20 de março, o elenco faz uma demonstração de trabalho no Sesc Pinheiros e, a partir de 7 de abril, entra em temporada do Teatro do Instituto Goethe, também em Pinheiros. Serviço - "A Que Ponto Chegamos". Texto e direção de Oswaldo Mendes. Sexta, às 21 horas; sábado, às 20 horas. R$ 10,00. Sesc Santo Amaro. Rua Amador Bueno, 505, tel. 5183-3110.

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