A pseudo-ópera de Arrigo
Era para virar pó, peça vanguardista relegada à história não contada da música popular brasileira. Mas um encontro, no ano passado, estimulou o compositor Arrigo Barnabé a transformar em CD o espetáculo Gigante Negão, montado e apresentado no começo da década em São Paulo.
O CD chega agora às lojas pelo selo Núcleo Contemporâneo. Tão bizarro para os padrões do mercado fonográfico quanto os primeiros trabalhos do artista, Gigante Negão reitera o andamento bêbado, os vocais estridentes e o perfil conceitual que provocaram alvoroço na MPB do começo da década de 80.
O espetáculo foi apresentado durante três noites no Palace, na capital paulista, em 1990. Contou com a participação de Itamar Assumpção e de um grupo de músicos que incluía Mário Manga, Mané Silveira, Ana Amélia, Mário Campos, Paulo Braga e outros com quem vinha trabalhando em projetos tão audaciosos quanto pouco vistos pelas grandes platéias.
A minitemporada foi um fiasco, reconhecido inclusive pelo próprio autor. O local não era apropriado, a idéia inicial era apresentá-lo num teatro menor da prefeitura. Por insistência do produtor, acabei levando para lá. Tive um prejuízo de uns R$ 20 mil - conta ele. Entre os problemas enfrentados na ocasião, Arrigo lembra que os músicos só puderam ensaiar um dia antes da estréia, pois na mesma semana a casa seria palco, pasmem, de um leilão de vacas.
Frustrado com a experiência, o compositor preferiu arquivar a idéia inicial de registrar o show em disco. No ano passado, porém, Arrigo reencontrou o operador de som Marcelo Salvador que mostrou-lhe uma fita cassete contendo a gravação da segunda noite do espetáculo. Surpreso com a qualidade do material, decidiu documentá-lo em compact disc com o aval entusiasmado dos proprietários do Núcleo Contemporâneo.
Gigante Negão é definido por ele como uma pseudo-ópera. É uma brincadeira, uma narrativa de humor, uma história contada através da música. A história, no caso, mistura esoterismo e ficção científica. Começa com a revolta de Lúcifer no Paraíso, que se vê ameaçado com a criação do Homem e parte para arrebanhar os anjos em sua luta contra os desígnios do Criador.
A trama segue combinando a idéia da vinda de um Messias com pesquisas de clonagem e o mundo no século 23 dominado pelas corporações publicitárias. Para montar a história, Arrigo recorreu a diversas fontes literárias. Há referências a Finnegans Wake de James Joyce, Fausto 2, de Goethe, Canção do Ferreiro, de Mircea Eliade e Gil Vicente - enumera.
O CD reúne 15 faixas. A capa e o encarte foram feitos por Roger Barnabé, 26 anos, filho do compositor. Musicalmente, Ópera Negão marca uma retomada das inovações estruturais levadas a cabo pelo compositor no começo da década passada, com compassos irregulares que remetem ao célebre álbum Clara Crocodilo(1980).
A regravação deste, aliás, virou obsessão do músico. Eu quero regravá-lo no ano que vem, desta vez ao vivo - revela. Enquanto isso, ele vai mantendo a produção dirigida para salas de concerto e trilhas sonoras. Atualmente, está compondo uma peça para o compositor curitibano Mário Silva e as músicas do filme Oriundi.Josoé de Carvalho/Arquivo FolhaArrigo Barnabé: músicas do espetáculo foram recuperadas oito anos depois, graças à descoberta e audição de uma gravação em fita cassete feita por um operador de somNelson Sato





