A prosa dos olhos verdes
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de julho de 1998
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
ReproduçãoCecília Meireles: crônicas escritas nas décadas de 40 e 50 A poesia de Cecília Meireles (1901 - 1964) é o grande marco feminino na literatura brasileira deste século. Enlaçando o eterno e o efêmero, seus versos estão pautados numa aguçada sensibilidade. São lidos tanto em banco de praças como em cadeiras acadêmicas.
Com uma vasta produção, suas crônicas escritas para jornais e revistas começam a ganhar a luz do dia. A Editora Nova Fronteira está lançando o primeiro volume de suas obras em prosa. Com o aval da família e organização do professor Leodegário A. de Azevedo Filho, esses textos de Cecília Meireles serão editados em aproximadamente 15 livros.
ReproduçãoO primeiro deles, Crônicas em Geral - Tomo 1, está nas livrarias apresentando crônicas escritas nas décadas de 40 e 50 publicadas em periódicos do Rio de Janeiro e São Paulo (A Manhã, Correio Paulistano, Folha Carioca, Folha da Manhã, Jornal de Notícias, Manchete, A Cigarra).
Na sequência serão lançados outros títulos divididos na seguinte forma: volume 2, crônicas de viagem; volume 3, tipos humanos e personalidades; volume 4, educação e folclore; volume 5, entrevistas, conferências e ensaios gerais; volume 6, varia.
As crônicas de Cecília Meireles apresentam, invariavelmente, uma reflexão sobre os sentimentos do mundo. Sejam eles mundanos ou metafísicos. São uma extensão temporal de sua poesia. Um exemplo disso está no texto Da Saudade, de 1957: Em geral, vê-se na saudade o sentimento de separação e distância daquilo que se ama e não se tem. Mas todos os instantes da nossa vida não vão sendo perda, separação e distância? O nosso presente, logo que alcança o futuro já o transforma em passado. A vida é um constante perder. A vida é, pois, uma constante saudade. Há uma saudade queixosa: a que desejaria reter, fixar, possuir. Há uma saudade sábia, que deixa as coisas passarem, como se não passassem. Livrando-as do tempo, salvando a sua essência de eternidade. É a única maneira, aliás, de lhes dar permanência: imortalizá-las em amor. O verdadeiro amor é, paradoxalmente, uma saudade constante, sem egoísmo nenhum.
Cecília Meireles nasceu no Rio de Janeiro em 7 de novembro de 1901. Não chegou e conhecer o pai, que morreu três meses antes de seu nascimento. Aos três anos de idade perdeu a mãe, passando a morar com a avó materna de origem açoriana. Sobre esses atropelos declarou: Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me derem, desde pequenina, uma tal intimidade com a morte que docemente aprendi essas relações entre o efêmero e o eterno. Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento de transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.
Em 1922 casou-se com o artista plástico português Fernando Correa Dias, com quem teve três filhas. A morte voltou a bater em sua porta com o suicídio do marido em 1935.
Desde a pequena refugiou-se na literatura como território de sobrevivência: Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram positivas para mim: silêncio e solidão. Essa sempre foi a área de minha vida. Área mágica, onde caleidoscópios inventaram fabulosos mundo geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do olhar. Mais tarde, foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidade e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano.
Como professora e educadora, Cecília organizou o primeira biblioteca infantil do país, em 1934, no Rio de Janeiro. Curiosamente a presença de um exemplar de As Aventuras de Tom Sawyer, do escritor Mark Twain provocou o fechamento da biblioteca. Era considerada, na época, uma obra perigosa para as crianças.
Embora tenha deixado uma imagem de mulher reservada, deixou suas impressões digitais na cultura brasileira. Lutou como guerreira para que a educação deixasse de ser do domínio exclusivo de padres e religiosos para ser território de educadores. Introduziu no Brasil a obra do então desconhecido Fernando Pessoa. Suas pesquisas sobre folclore contribuíram para a compreensão da multiplicidade cultural do país. Como tradutora, verteu para a língua portuguesa obras do chinês Li Po, do japonês Bashô e do indiano Tagore. Seu interesse pelo oriente ocorreu numa época em que a cultura de massa ainda não enxergava as culturas orientais. Seus versos sobre a obra de Gandhi (Elegia a Gandhi de 1953) ganharam repercussão mundial.
Após sua morte, ocorrida em 9 de novembro de 1964, sua poesia neo-simbolista continuou a desfrutar de grande popularidade pelos anos afora. A publicação agora de seus textos escritos para a imprensa pode oferecer novos subsídios para uma maior compreensão de sua obra e personalidade. Seu grande objetivo, segundo suas palavras, quando pegava a caneta para escrever, era acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação - mas por uma contemplação poética afetuosa e participante.
Serviço:
Obra em Prosa - Volume 1 - Crônicas em Geral - Tomo 1 de Cecília Meireles, Editora Nova Fronteira, Organização de Leodegário A de Azevedo Filho, 384 páginas, R$ 30,00/Livraria Rosa do Povo (fone: 321-5691).


