A profissão de contar histórias
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segunda-feira, 03 de abril de 2017
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 

Há pessoas que, no dia a dia, apresentam um domínio na arte de contar histórias. É um "causo" que todos prestam atenção; é uma memória de família que emociona na mesa do almoço; é uma piada que, mesmo sem tanta graça, anima o ambiente; é uma palestra cujas palavras permanecem muito tempo na lembrança do público. Essas são uma pequena amostra - ainda que muitos não acreditem em seu potencial de que o ser humano é um contador de histórias nato, cada qual com seu perfil, seja ele mais retraído, engraçado ou expansivo. Importante ressaltar que não há, portanto, fórmula correta da narrativa oral, mas um objetivo: que a história, de alguma forma, transforme quem está ouvindo, seja pela troca de experiências, para preservar a memória ou estimular a imaginação.

Se alguns anos atrás a contação de história era vista como passatempo ou dom, hoje, em alguns países, incluindo o Brasil, já é considerada uma profissão. Existem até mesmo cursos direcionados à pesquisa e ao aprimoramento de técnicas que instrumentalizam o mediador/formador de leitor e o contador para uma vivência embasada em métodos sistematizados. Deve-se atentar que essas ferramentas darão subsídio e orientação ao contador, e não exatamente definirão seu estilo. Quem busca esse aperfeiçoamento pode participar de cursos livres. No país, existem diversos profissionais que repassem seus conhecimentos em oficinas. E, desde 2012, a Fatum Educacional, em parceria com universidades, oferece um curso de Contação de Histórias e Literatura Infantil Juvenil reconhecido pelo Ministério da Educação (MEC) no formato latu sensu, ou seja, especialização.
Segundo o diretor pedagógico da instituição, o Doutor em Educação, que também é contador de histórias, professor Cleber Fabiano, a Fatum nasceu a partir da necessidade de criar um curso que profissionalizasse a arte da contação de história. "Os cursos oferecidos abrangem desde a seleção do repertório das obras até as técnicas e estratégias da contação de histórias e mediação de leitura. O repertório acontece pelo conhecimento de histórias literárias e populares, clássicas ou contemporâneas, passando pela afrobrasileira, indígena, mítica e ilustração. Com base nisso, o aluno irá desenvolver técnicas e estratégias para adquirir uma linguagem, um estilo próprio de contar a história", explica.
Dividido em módulos, o curso aborda assuntos como expressão corporal, gestual, seleção e tratamento do repertório para a via oral. "No início, o primeiro contato é com os autores clássicos da literatura infantil e suas obras para conhecê-los na origem. É preciso ser um leitor crítico para realizar a narração oral. Depois, o aluno passa por um processo de autoconhecimento para entender formas de como agir e memorizar o texto, por exemplo. Em seguida, as técnicas como chamamento e hermenêutica - e estratégias para contar as histórias usando esse conhecimento adquirido. Com o domínio dessas etapas, é momento da última fase, a apresentação pública."

O público-alvo para os cursos são profissionais da Educação, mediadores de leitura, contadores de histórias, empresas e pessoas interessadas na promoção do livro e da leitura. "A grande maioria daqueles que iniciam o curso não têm formação; esse é o primeiro contato. Outros vêm em busca de um curso que tenha essa aprovação legal para, assim, poderem assumir espaços de apresentações. Mas é um leque bem amplo que vai além da contação de histórias. É voltado, ainda, para a formação de líderes em empresas que vão adquirir ferramentas para agregar valor ao produto." As inscrições para nova turma encerram-se no próximo dia 20 de abril.
Palavras Andantes
Este ano, o projeto Palavras Andantes da Secretaria Municipal de Educação de Londrina completa 15 anos de existência. Ao longo desse período, o projeto, que dentre as ações contempla a "Hora do Conto", atividade que leva o aluno à biblioteca para contação de histórias semanalmente, está implantado em 100% das escolas do município, incluindo as rurais. Segundo a coordenadora do projeto, integrante da equipe pedagógica da secretaria, Marcia Batista, em 2002 havia 79 unidades escolares com atendimento à biblioteca, hoje são 86 unidades. "Anualmente, houve um aumento contínuo do atendimento do projeto nas escolas, tanto em relação às bibliotecas escolares e às estratégias pedagógicas no fortalecimento da leitura, como na formação de leitores e, também, no suporte ao ensino em sala de aula." No total, são 150 professores contadores de histórias que fazem a mediação e incentivo à leitura.
Conforme ela, os resultados são totalmente nítidos e satisfatórios. "Depois desses anos, podemos dizer que, agora, há compreensão do papel da biblioteca na escola. Nossos levantamentos apontam para o aumento considerável do empréstimo de livros, além de maior rendimento nas atividades de produção textual. Hoje, as crianças emprestam, no mínimo, um livro por semana e a qualidade das produções é melhor, considerando aspectos de criatividade e do uso da língua." Os professores que atuam nas bibliotecas também recebem formação contínua de aperfeiçoamento com oficinas de confecção de bonecos, narrativas visuais, seleção de repertório, entre outros. "Todas essas ferramentas dão auxílio para o professor melhorar sua performance como contador de história", completa.
Celeiro
Londrina é um celeiro de contadores de histórias. Existem vários projetos, profissionais e grupos que atuam em diversos espaços da cidade e região. Um deles, é o Encontro de Contadores de Histórias (Ecoh) de Londrina, que já está em sua 6º edição. A cada ano, mais pessoas participam das oficinas e cursos, bem como na formação de plateia. Outro projeto bem sucedido é "Um Dedo de Prosa nas Escolas", parte das atividades ao longo do ano do Londrix - Festival Literário de Londrina, que leva autores para as escolas da região a fim de promover a imanência entre autores e alunos, despertando o interesse na leitura e na formação literária.


