De novo, os Racionais MC's transformam as lojas de hip hop em intermináveis ''entra-e-sai'' de seguidores. Foi assim na semana passada, com filas e tudo, quando chegaram as primeiras 100 mil cópias do aguardado CD ''Nada Como um Dia Após o Outro Dia'' (Cosa Nostra/Zâmbia).
A tiragem inicial esgotou-se em três dias. O disco está sendo distribuído aos poucos no varejão. Em Londrina, está à venda somente na loja IV Elementos, no Centro Comercial. O lançamento foi adiado várias vezes. O disco é duplo, reunindo 21 faixas. O repertório não traz o mesmo impacto de ''Sobrevivendo no Inferno'', de cinco anos atrás, mas ameaça ofuscar qualquer título nacional na temporada.
É, já, candidato a álbum do ano. ''O dinheiro tira um homem da miséria / mas não pode arrancar de dentro dele a favela'' canta Edy Rock em ''Negro Drama''. Na faixa seguinte, ele narra o período conturbado que enfrentou após 1994, quando bateu seu Opala em uma kombi na Marginal Pinheiros (SP) causando a morte de uma pessoa e ferindo seis pessoas.
Em ''12 de outubro'', Mano Brown dispara contra os políticos depois de lembrar um depoimento amargo de um garoto no Dia da Criança. No fundo, apenas um violão. Pela artilharia verbal, passam ainda a crônica da violência na periferia, o tráfico de drogas e a importância de se manter altivo em meio à barbárie social.
''A vida não é um conto de fada / principalmente na calada, nas quebradas / Onde a gente vê / Registra várias fitas / O que o ser humano é capaz / Você não acredita'' cantam em ''Expresso da Meia-Noite''. A mulher, menosprezada na maioria das composições do grupo, aparece como tema de duas faixas. Na bem-humorada ''Fone'', KL Jay tira uma onda na galinhagem.
Em ''Estilo Cachorro'', Mano Brown culpa as próprias meninas por consagrarem o garanhão canalha. Em ''Trutas e Quebradas'', a letra consiste numa extensa lista de nomes de amigos e de bairros periféricos. As bases na maioria das músicas mesclam texturas melódicas e batidas sombrias com levadas funky da velha escola (old school).
Alternam passagens discretas com trechos de arrepiar. O álbum traz participações especiais do rapper Afro-X e da cantora Vanessa Jackson, vencedora da primeira edição do programa Fama (Globo). Chega às lojas a R$ 23,90, preço sugerido inclusive na capinha. O grupo continua sua saga independente, sem aparecer em programas de tevê e sem apoio do marketing pesado da indústria.
''Sobrevivendo no Inferno'' vendeu 700 mil cópias. O novo CD deve repetir a proeza.

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