À PROCURA DE UM GRANDE FILME
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 03 de setembro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<BR>Especial para a Folha 2 
Para que servem festivais de cinema? Pergunta antiga, recorrente e nunca respondida satisfatoriamente. Em tese, mostras competitivas nasceram para reunir, em local e por tempo determinados, as mais urgentes propostas da vanguarda cinematográfica mundial. Sempre de costas para a pasteurização comercial hollywoodiana, a tendência de festivais como os de Cannes, Veneza e Berlim é promover a discussão, estética e de conteúdo, da visão de mundo de autores de pontos diversos mediante um processo de criação artística original e diferenciado. De modo geral, a prática corresponde à teoria e os festivais são, sim, estes fóruns geradores de novos conhecimentos, ricos em influentes descendência. Mas de tempos em tempos a receita não vai lá muito bem, os temperos desandam e os propósitos mais nobres se dispersam. A 58 Mostra Internazionale d'Arte Cinematografica de Veneza vive mais ou menos este acidente percurso.
A continuar neste andamento pouco notável, não deve surgir o sempre esperado grande filme, aquele que faz diferença, desequilibra, remete à excepcionalidade e aponta para o pódio. Embora muito pouco se saiba do filme, crescem assim as possibilidades de Walter Salles e seu ''Abril Despedaçado'', com primeira exibição prevista para amanhã à noite.
De Portugal e em competição, o poético, rigoroso e embalsamado ''Quem és Tu ?'', de João Botelho, é a adaptação de uma obra-prima do teatro lusitano, ''Frei Luis de Souza'', de Almeida Garrett. Primado do texto sobre belas e lentas imagens que parecem saídas de galerias de museu, ''Quem és Tu?'' é o primeiro filme que trata de Portugal num período histórico que representa grande perda para o país: a batalha de Alcácer-Quibir, ao final do século 16, e o desaparecimento do rei Dom Sebastião.
Fora de concurso, um momento de muita emoção ao final da exibição do documentário ''Pier Paolo Pasolino e la Ragione di un Sogno''. Um filme de amor realizado pela atriz Laura Betti, 25 anos depois da morte do poeta e cineasta. A grande vantagem é que o roteiro não se preocupa com o assassinato de Pasolini, mas trata somente de sua existência, de sua vitalidade. Bem feito, comovente mas discreto, o documentário evoca um clima cultural e um meio literário já desaparecidos na Itália. Imagens e citações originais, sempre afetuosas. A atriz quase não aparece, e como diretora cede lugar à voz e à presença sempre instigante do diretor de ''Teorema'' - para quem não se lembra, Laura Betti faz no filme a empregada doméstica.
''Hollywood Hong-Kong'', do chinês Fruit Chan, vende bem menos do que oferece. Segunda parte de uma trilogia iniciada com ''Durian Durian'', exibido ano passado aqui mesmo em Veneza, o filme aborda o tema da prostituição e dos desequilíbrios sociais de uma megalópole pós-capitalista, em franca recessão desde 1997.
A presença oficial francesa não é das mais carismáticas também. ''Loin'', de André Techiné. Um filme ''árabe'' do diretor de ''Rosas Selvagens''. Um cineasta sempre a discorrer sobre encruzilhadas e indecisões, aqui Techiné não muda o disco e se põe a fazer cinema como sempre. As diversas formas de tensão entre opostos: culturas, raças, orgulhos nacionais, confusões sexuais, afetivas, existenciais. O que muda aqui é o cenário. Estamos em Tanger, e por três dias acompanhamos três personagens. Serge é um caminhoneiro traficante de drogas. Said é um órfão que sonha um dia chegar a Europa. Sara é namorada de Serge.
Decepcionante, embora sempre respeitável, a volta de Werner Herzog à ficção com ''Invincible''. Seguramente um dos últimos cineastas malditos em circulação, desta vez o operístico diretor de ''Aguirre'', ''Fitzcarraldo'' e ''Nosferatu'' não trouxe nada que pudesse reafirmar seu nome como ponto de referência para a evolução e transformação do cinema. Herzog conta aqui a história verídica do judeu Zesha Breitbart, operário simples e ingênuo que é levado para Berlim nos primeiros anos 30 e exibido perante platéias nazistas como o homem mais forte do mundo, sob o nome artístico e conveniente de Siegfried. Sempre obcecado pelo realismo, Herzog entregou o papel principal ao campeão mundial de levantamento de peso Jouko Ahola. Mas o personagem mais significativo é Hanussen, o clarividente oficial de Hitler interpretado por Tim Roth. Com jeito de telefilme, burocrático e lamentavelmente falado em inglês, ''Invencível'' não deve nem mesmo causar polêmica sobre certos papéis desempenhados por judeus nos anos que antecederam o Terceiro Reich.
Leia mais sobre o Festival de Veneza na página 6.


