À procura de talentos
Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Dentro de algumas semanas o Brasil terá oportunidade de ler a vida de Ben Bradlee, o editor-executivo do The Washington Post, poderoso jornal americano que em 1972 escancarou a história do Partido Democrático no edifício Watergate e acabou por derrubar o presidente Richard Nixon do poder. Uma Boa Vida Jornalismo e Outras Aventuras, livro escrito pelo próprio Bradlee, está sendo lançado nacionalmente pela Península Editora, de Curitiba.
A Península foi criada pelo curitibano Lionel Almeida, quando ele vivia em São Paulo. Recentemente mudou-se de volta para o Paraná, fugindo da alucinação paulistana, e trouxe junto a editora. O primeiro livro lançado já em terras paranaenses foi o ensaio A Guerra do Futuro, de Bevin Alexander, com circulação dirigida aos associados da Biblioteca do Exército.
O segundo título, a autobiografia de Ben Bradlee, chega às livrarias na segunda metade de dezembro, promete o editor. A obra vertida para o português por Vincent Gundolf, foi citada numa entrevista que o correspondente Paulo Sotero fez com Bradlee, nos Estados Unidos, para o caderno Cultura, da edição domingueira do jornal O Estado de S. Paulo. Matéria que rendeu duas páginas; uma delas, a capa do caderno.
A importância de Bradlee na história americana por conseguinte na mundial, com seus reflexos internos é capital, pois ele era o homem-chave do The Washington Post quando Carl Berstein e Bob Woodward trouxeram o material bombástico das reuniões dos republicanos no Watergate. Não foi esta a única vez que o jornal enfrentou a Casa Branca e sofreu pressões poderosas, mas o assunto rendeu o maior capítulo do seu livro de memórias.
Uma Boa Vida foi lançado há quatro anos nos Estados Unidos, e deveria ter lançamento simultâneo pela Península, não fosse a demora dos Correios na entrega das correspondências, segundo Almeida. Os atrasos da documentação, incluindo aí assinaturas de termos do contrato, etc., inviabilizaram a continuidade do projeto.
Com este livro inauguramos uma série de outros biografias e autobiografias sobre pessoas ligadas à mídia contemporânea, anuncia o editor. Após Bradlee, estão na lista William S. Paley, fundador do grupo CBS e Henry Luce, fundador da revista Time. A previsão é de que a cada quatro meses tenha um novo título na praça. Lionel Almeida explica que a escolha dessa linha editorial deve-se à importância cada vez maior das pessoas ligadas à mídia.
A profissão de editor, ou organizador de mídia, é uma profissão chave à medida que você tem uma quantidade maior de informações circulando, diz ele. A função de organizar, explicar, contextualizar as informações adquire uma importância cada vez maior. Essas pessoas, então, vivem talvez a profissão mais importante daqui para a frente.
Como exemplo mais clamoroso da disponibilidade de informações, cita a Internet. No entanto, apenas uma pequena parte desse todo é aproveitada, seja pela falta de acesso ou de compreensão enquanto não selecionadas. Comenta Almeida que é aí que entra o trabalho do editor. A aposta da Península numa sequência de biografias deve-se à opinião do editor, que afirma ser este gênero uma das melhores formas de se entender a história.
É um entendimento mais humano. Ao contrário do que acontece com a historiografia oficial. Ou aquela com influência marxista, que atribui pouca importância ao indivíduo e ressalta mais as grandes leis, as grandes forças atuando na sociedade, relevando o indivíduo a um papel menor.
Puxando para o livro de Bradlee, tem-se ali um retrato interno de Washington que é a capital da maior potência do século 20 como a trajetória do jornalista se entranhando nos bastidores desse mundo. Isso resultou tanto do cargo que ocupava no jornal como pela amizade que o unia ao casal John-Jacqueline Kennedy.
Lionel Amaral observa que evidentemente, você tem também uma visão interna do funcionamento de um grande veículo de informação, extremamente influente, que é o The Washington Post. Como a vida de Bradlee não transcorreu somente dentro de uma redação, o texto dele relata os tempos de guerra, mas como era combatente de baixo escalão na marinha, sua visão é a do navio, não propriamente da guerra como um todo.
O editor deixa claro que sua empresa não quer disputar um mercado popular. Nosso objetivo é trabalhar com literatura de qualidade. Por essa razão os volumes que levarem a marca Península terão cuidado muito grande, não só com o texto, mas também com a apresentação gráfica. Aqui, observam-se os melhores princípios da tipografia, para que a obra seja agradável à vista e ao tato também.
Outro projeto para lançamento a curto prazo visa o escritor paranaense. Vai se constituir de livros que obedecerão a uma estrutura de título que talvez venha a se chamar Autores em .... O primeiro seria Autores em Férias, o segundo Autores em Viagem e assim por diante. Planejamos publicar textos inovadores, corajosos, que apresentem idéias novas. A série também estará voltada para o mercado nacional, como um meio de divulgar autores paranaenses de qualidade, explica Almeida.
Constituída somente de textos de ficção contos, crônicas ou ensaios a coleção obedecerá a um tema que, por sua vez, estará ligado à época do lançamento. Assim, Autores em Viagem cai bem com o verão, por exemplo, e deverá chegar às livrarias nessa época. Mas o texto obrigatoriamente terá que conter situações correlatas ao título.
A Península Editora pretende ser uma descobridora de escritores, pois este projeto abre-se aos novos talentos. Lionel Almeida acredita que existe muita gente escrevendo, poucas com acesso às editoras. Entre aqueles que chegam a publicar, percebe-se que muitos não tiveram o que ele chama de apoio editorial de fato.
Ou seja, faltou-lhes a presença do editor exercendo uma leitura crítica previamente, auxiliando o escritor a desenvolver o trabalho. Esse é um papel fundamental do editor de livros, que é ajudar o escritor a gestar e parir seus livros.Editora curitibana lança biografia de Ben Bradlee, editor do Washington Post durante o Watergate, e pretende descobrir escritores paranaenses
Kraw PenasLionel Almeida está lançando no Brasil a biografia de Ben Bradlee, o editor que ajudou a mudar a história dos Estados Unidos





