A PROCLAMAÇÃO DA VONTADE
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de novembro de 2001
Marcos Losnak<br>De Londrina - Especial para a Folha2 
Vamos supor que um garoto, daqueles bem invocados, precise fazer um trabalho de escola. Vamos supor que o tema do trabalho seja os direitos das crianças. Aquelas declarações que os adultos criaram para que a vida das crianças não seja dolorida um documento que vale para todo menino ou menina de qualquer país, de qualquer cidade.
Vamos supor que o garoto, após o trabalho concluído, resolva escrever ele próprio um documento, ''A Declaração Universal do Moleque Invocado''. Vamos supor que ele perceba que toda pessoa tem direito de oferecer sua visão de uma vida legal.
Com caneta e papel na mão, vamos supor que ele escreve as primeira palavras de sua declaração: ''Toda criança nasce meio com fome meio com vontade de fazer cocô, assustada e pelada, mas ela não tem culpa e não merece apanhar na bunda por causa disso, pô!''
Invocado e instigado pelo assunto, vamos supor que ele mande bala e mais bala: ''Toda criança não será obrigada a beijar e abraçar as tias e os tios velhos que estiverem engordurados, cheios de pó-de-arroz, suados e que fiquem sempre beliscando ou passando a mão na cabeça dizendo 'que gracinha' ou babando no pescoço da gente!''
Mais: ''Toda criança tem direito de experimentar peruca, apertar botões, puxar cordinhas, mexer na televisão, fazer cócegas, morder rolha ou isopor, derrubar pilha de revista, adiantar ou atrasar relógio, comer sobremesa antes da comida, tomar banho de mangueira e refrigerante direto na garrafa.''
Ainda mais: ''Toda criança tem direito a ir ao dentista e não sentir dor. Assim também, todas as fábricas de doces ficam obrigadas a pesquisar novas coisas de comer deliciosas, cheias de cremes e delícias melequentas que nunca estraguem os dentes ou provoquem cáries, feridas na boca e dor de dente.''
Com mais lucidez: ''Toda criança tem o direito de estragar uma coisa enquanto procura construir outra. Se no meio dessa bagunça a gente não chegar a lugar nenhum, também não faz mal.''
Mesmo com tantas suposições, o garoto invocado realmente existe. Ele e suas idéias estão no livro ''Declaração Universal do Moleque Invocado'', que acaba de ser lançado pela editora Cosac & Naify. De autoria do escritor paulista Fernando Bonassi, a obra apresenta de maneira humorada, e ao mesmo tempo invocada, a ótica de um garoto sobre as reais e lúdicas necessidades das crianças.
O garoto sabe do que está falando, afinal é a pessoa mais interessada: ''Toda criança é igual. O que uma sente, a outra já sentiu um dia; o que deixa uma muito triste, deixa as outras tristes também, o que deixa uma feliz, já deixou outras muito felizes antes. É assim mesmo, sem tirar nem pôr: quanto mais diferença, mais a gente é parecido.''
Cada um pode escrever sua própria declaração. Mesmo não sendo invocado. É só ter lápis e papel na mão. E não esquecer de levar em conta que direitos sempre são acompanhados de deveres.
Declaração Universal do Moleque Invocado, de Fernando Bonassi, ilustrações de Azeite, Cosac & Naify Edições, 24 páginas, R$ 13,00.


