A PRIMEIRA AVENTURA DO MUNDO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de janeiro de 2001
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha 2 
Na vida existe um lei que afirma que tudo segue um único caminho. Um caminho previsível. As coisas nascem, crescem, envelhecem e morrem. Mas existe algo que nasce, cresce, envelhece e não morre. Algo que pode durar milhares de anos: as histórias.
Existe, por exemplo, uma história chamada A Epopéia de Gilgamesh que foi escrita há mais de 5 mil anos. Ela foi criada pelos sumérios, um povo que habitou a Mesopotâmia (região onde ficam o Iraque e a Síria atualmente). Foi gravada em placas de argila em escrita cuneiforme, uma escrita muito antiga que existiu antes da invenção do alfabeto.
A história chegou até nós graças a arqueólogos que encontraram as placas e, com muito trabalho, conseguiram converter os sinais em palavras. E, para surpresa de todos, descobriram que várias histórias que conhecemos já eram contadas na Epopéia de Gilgamesh, há 5 mil anos atrás.
Para se ter uma idéia, a passagem da Bíblia que conta a história do dilúvio, com Noé e sua arca cheia de bichos, é originalmente uma das narrativas presentes na epopéia suméria. Por isso, e por outros motivos, Gilgamesh é considerada a história mais antiga do mundo. E seu protagonista o primeiro herói da literatura universal.
A Editora Projeto publicou uma bela versão infantil/infanto-juvenil da história. Escrita e ilustrada pela artista tcheca Ludmila Zeman, a obra é dividida em três volumes, O Rei Gilgamesh, A Vingança de Ishtar e A Última Busca de Gilgamesh. Uma rara oportunidade para entrar em contato com a maravilhosa lenda de Gilgamesh.
Gilgamesh era um rei, meio homem, meio deus, enviado pelo Deus Sol para governar a cidade de Uruk. Ele parecia um ser humano comum, mas não sabia exatamente o que era ser humano. Tinha tudo o que queria, poder e riqueza, mas não amigos. Na verdade não conhecia a felicidade.
Com o passar do tempo se tornou amargo e cruel. Ordenou que uma grande muralha fosse construída em volta da cidade de Uruk. Toda a população foi convocada para o trabalho, que era realizado sem descanso. Após muito sofrimento, o povo percebeu que a construção da muralha era uma tarefa infindável, fruto da prepotência de Gilgamesh.
Desesperados, os habitantes de Uruk rezaram para que o Deus Sol colocasse um ponto final na situação. Ouvindo as preces, o Deus criou um outro ser parecido com Gilgamesh, meio homem, meio deus. Feito a partir do barro, recebeu o nome de Enkidu.
Por ordens divinas, Enkidu foi enviado para viver com os animais da floresta, onde aprendeu a cuidar dos bichos. Tinha uma vida tranquila, mas não sabia o que era os sentimentos humanos, isso porque nunca tinha visto um outro ser humano.
Um belo dia Gilgamesh e Enkidu se encontram. O rei, querendo demonstrar ser o mais forte e poderoso, chamou-o para a luta. Durante a briga violenta, no alto da muralha de Uruk, Gilgamesh perdeu o equilíbrio e, quando estava para cair, foi salvo por um gesto inesperado de Enkidu. Nesse instante, o rei compreende finalmente o que era ser humano. Conhece a bondade e a solidariedade.
Gilgamesh e Enkidu tornam-se amigos inseparáveis, aprendem o sentido da amizade e a população de Uruk reencontra a paz. Juntos empreendem viagens repletas de aventuras. Enfrentam desafios impossíveis e monstros terríveis.
A felicidade da dupla termina no dia em que Enkidu adoece e morre. Sofrendo com a perda do amigo, Gilgamesh passa a considerar a morte o pior monstro do mundo e decide enfrentá-lo. Realiza então sua última e solitária aventura: a busca da imortalidade.
Embora enfrente todos os obstáculos com coragem e determinação, não encontra a imortalidade. Em compensação, torna-se um sábio homem que passa a aceitar a morte como parte do processo da vida. Percebe, com a ajuda do amigo Enkidu, que, embora um dia deixará de existir, permanecerá na lembrança e no coração das pessoas. Da mesma maneira como as boas histórias.
O Rei Gilgamesh Recontado e ilustrado por Ludmila Zeman, Editora Projeto (telefone 51-346-1258), tradução de Sérgio Capparelli, 24 páginas, R$ 14,00.
A Vingança de Ishtar Recontado e ilustrado por Ludmila Zeman, Editora Projeto, tradução de Sérgio Capparelli, 24 páginas, R$ 14,00.
A Última Busca de Gilgamesh Recontado e ilustrado por Ludmila Zeman, Editora Projeto, tradução de Sérgio Capparelli, 24 páginas, R$ 14,00.


