A preguiça, segundo Noll
ReproduçãoLivro de João Gilberto Noll é o único da coleção que apresenta experimentalismo narrativoReproduçãoJoão Gilberto Noll, para desespero de seus admiradores, escreveu um livro sob encomenda. Ele, o festejado escritor gaúcho autor de obras magníficas como ‘‘O Cego e a Dançarina’’ (Rocco) e ‘‘A Céu Aberto’’ (Companhia das Letras), se propunha agora a renegar seu trabalho meramente artístico e se sujeitar ao poder de R$ 20 mil reais em adiantamento (mais os tradicionais 10% de direito autoral) para escrever um livro com a obrigação de ser best seller. Pior: seu pecado, o da preguiça, teria a responsabilidade de redimir o anterior, sobre a luxúria, escrito por nada mais nada menos que João Ubaldo Ribeiro, e considerado um senão na obra do autor, apesar do estrondoso sucesso de vendas.
Pois com ‘‘Canoas e Marolas’’ (Editora Objetiva, R$ 15 reais), João Gilberto Noll prova que mesmo um livro por encomenda pode ser uma boa obra literária. Ele desequilibra a coleção, marcada pela irregularidade, impondo respeito em meio a autores como Luís Fernando Veríssimo e o chileno exilado Ariel Dorfman. Sem dúvida nenhuma trata-se do melhor dos sete pecados, ainda que seja um tanto quanto perigoso afirmá-lo categoricamente, pois para completar a coleção falta a soberba. Superar ‘‘Canoas e Marolas’’, porém, é tarefa difícil para o argentino Tomás Eloy Martinez.
‘‘Canoas e Marolas’’ é o único dos seis pecados lançados até agora que contém algum tipo de experimentalismo narrativo e alguma ousadia linguística. A prosa de João Gilberto Noll se revela em toda a sua poeticidade neste livro denso e que extrapola o sentido comum dado ao mais festejado dos pecados capitais: a preguiça. Noll não faz concessões ao leitor em seu enredo, cheio de inversões de tempo e espaço, transformado em delírio na rede, ao sabor da maresia. Pois o que é a preguiça, se não um deixar-se estar meio irresponsável?
Esta é a principal característica de ‘‘Canoas e Marolas’’: a irresponsabilidade estética. Noll não respeita parâmetros para dar vazão à virilidade de seu ócio. Assim, constrói um personagem vago em sua densidade, com atitudes desvinculadas de qualquer elemento castrador, que por ventura lhe indicassem caminhos outros que não aqueles que ele se dispôs a trilhar apenas pelo prazer de não ter de se submeter a limites. Como o bom vagabundo, que renega a vida de conforto e sacrifício para viver a constância de não cansar-se jamais.
‘‘Canoas e Marolas’’ conta a história de um homem velho, chamado João das Águas, em uma ilha, à procura de sua suposta filha, uma tal de Marta, sobre a qual ele não tem muitas certezas, a não ser a lembrança embaçada de uma noite com uma enfermeira loira, que a teria gerado, há muito anos. Nesta ilha há um rio; e é à beira deste rio que João das Águas passa o tempo ao lado de um jovem mudo com feições indígenas que ele não sabe quem é. Se o encontro com uma Marta, qualquer uma, loira e grávida, é inevitável, também são inevitáveis as dúvidas sobre a autenticidade da paternidade.
Mas, enfim, o que é que a busca de um homem por sua filha desconhecida numa ilha cortada por um rio pode ter a ver com um pecado tão palpável, talvez o menos abstrato de todos, como a preguiça?
Eis a genialidade de Noll, revelada neste livro. Ao contrário dos demais autores da coleção, que optaram por escrever sobre a definição concreta de seus respectivos pecados, Noll optou por fazer dele uma metáfora, e assim sublevar o significado tradicional do não agir. Preguiça, para João Gilberto Noll, se traduz em desleixo, em desapego, em desalento. Seu personagem de nome irreal e sem idade definida, aqui ou ali, é qualquer homem que se deixe conduzir apenas por suas vontades mais absurda e suas fantasias mais ousadas. Um homem que goza do prazer, um prazer caro, que requer sobretudo sofrimento e reflexão, o prazer de deixar-se conduzir pelas marolas da vida, despreocupadamente. É esta a questão: é possível tamanho desprendimento das coisas mundanas? João Gilberto Noll faz da preguiça um pecado com penitência em si.

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